'Uma Família Respeitável': o real é uma coisa instável

Filme de Massoud Bakhshi, 'Uma Família Respeitável' visita, copm um ponto de vista crítico, os espaços familiares, num Irão contemporâneo.

Filme: 'Uma família Respeitável'

De: Massoud Bakhshi

Com:Babak Hamidian, Mehrdad Sedighian, Mehran Ahmadi

Classificação: 3 estrelas

Somos envolvidos nas emoções de Uma Família Respeitável, de Massoud Bakhshi, através de uma lógica mais ou menos policial. A cena de abertura mostra-nos alguém que entra num táxi, a caminho do aeroporto, acabando por ser atacado de forma brutal... Em boa verdade, não vemos a personagem central, já que toda a cena é filmada em planos subjetivos; mais à frente vamos compreender que a construção do filme não é linear, correspondendo aquilo que acontece no táxi a uma situação posterior aos acontecimentos que, depois, nos são apresentados.

Não se trata, entenda-se, de uma mera pirueta formal. Para Bakhshi é importante fazer passar a sensação de que a odisseia do professor que regressa ao Irão envolve um leque de tensões que, obviamente, o próprio não controla: por um lado, a história da sua família está minada de rivalidades e traições que remetem para um passado mais ou menos distante; por outro lado, nada do que acontece pode ser separado de uma dinâmica social em que a singularidade individual não é um valor necessariamente reconhecido por todos.

Podemos apostar que o efeito de tudo isto não será estranho à experiência de Bakhshi como documentarista: ele consegue envolver-nos através da verdade muito física das personagens e dos lugares, quase como se estivesse a fazer uma reportagem a correr "atrás dos acontecimentos"; ao mesmo tempo, não podemos deixar de participar da estranheza do protagonista, sentindo uma distância incómoda em relação a pessoas ou eventos que deveriam ser naturais e acolhedores. Nesta perspetiva, não será abusivo considerar que a lição do grande mestre do cinema iraniano, Abbas Kiarostami, está bem presente: o real é essa "coisa" instável que se joga entre uma transparência natural e o assombramento mais inclassificável.

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