Subsídios não podem ser desbaratados em filmes comerciais

O diretor de produção Henrique Espírito Santo afirmou, em entrevista à Lusa, que os subsídios atribuídos pelo Estado não podem ser "desbaratados" em filmes comerciais, mas sim aplicados em projetos que deem novos conhecimentos a quem os vê.

Numa conversa durante a qual apelou repetidamente a uma maior união entre os participantes do panorama cinematográfico nacional, face a problemas que considera não distantes de alguns enfrentados na ditadura, na era anterior ao 25 de Abril, o homenageado deste ano do Fantasporto disse que, durante as décadas de 1960 e 1970, "estavam todos ao lado de um cinema culturalmente empenhado".

"Não era fazer cinema ou filmes difíceis de entendimento do espectador, mas partia-se do princípio de que um filme que recebe um subsídio, num país onde não há uma indústria cinematográfica, esses subsídios têm de beneficiar coisas culturais, porque, havendo uma indústria, meu amigo, [cada um] faz o que quiser, desde a pornografia até aos filmes intelectualmente empenhados. Agora que um subsídio não pode ser desbaratado nesse tipo de filmes, isso acho que não", disse o diretor de produção de obras como "O Recado", de José Fonseca e Costa, e "Meus Amigos", de António da Cunha Telles.

Henrique Espírito Santo, hoje com 82 anos, reconhece que é um debate que vem de longa data, mas não deixa de considerar que "havendo subsídio, tem que haver coisa séria", ou por outras palavras, algo "que dê a quem vê a possibilidade de novos conhecimentos".

"Porque estar a gastar dinheiro para fazer 'cowboiadas', já chegam os americanos", desabafa o também ator.

Lembrado do episódio do realizador João César Monteiro quando do lançamento de "Branca de Neve" e da polémica sobre os filmes apoiados -- ou não -- pelo Estado, Henrique Espírito Santo, que foi diretor de produção da primeira obra do autor de "Recordações da Casa Amarela" e produtor de "Veredas", classifica a situação de "corajosa".

"É preciso conhecer o César, porque, de facto, só uma figura como aquela tinha essa coragem, muito embora não seja um exemplo único no cinema a esse nível de cortes na imagem, o chamado filmar em negro. Eu, por mim, achei impecável, mas sou suspeito", afirmou Henrique Espírito Santo, com um sorriso recorrente no seu rosto.

Para o diretor de produção, que deu a cara recentemente no filme "Tabu", de Miguel Gomes, hoje "é necessário grande unidade daqueles que, amantes do cinema, lutam por um cinema português", setor que, "perante tais dificuldades, tem dado ao país prémios, reconhecimento e cultura".

"A partir daqui, o que é que podemos desejar mais?", pergunta Henrique Espírito Santo.

Diretor de produção do Centro Português de Cinema, que marcou o movimento renovador das décadas de 1960 e 1970, trabalhou com cineastas como Luís Filipe Rocha, José Álvaro Morais, José de Sá Caetano, Solveig Nordlund, Jorge Silva Melo, João Mário Grilo e Alberto Seixas Santos.

O nome de Henrique Espírito Santo está associado à produção de "A Promessa", de António de Macedo, que entrou na seleção oficial do Festival de Cannes, em 1973, "Jaime", de António Reis, pioneiro do documentarismo em Portugal, "Benilde ou a Virgem Mãe" e "Amor de Perdição", de Manoel de Oliveira, entre mais de duas dezenas de filmes, que remontam ao final dos anos de 1960.

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