'Spring Breakers': O sonho americano corrompido

O filme "Viagem de Finalistas", de Harmony Korine, leva quatro adolescentes norte-americanas rumo a uma vertigem de álcool, drogas e muito sexo da qual não querem regressar.

Título: 'Viagem de Finalistas'

Realização: Harmony Korine

O cenário da antestreia era mais ou menos este: "Spring Breakers - Esgotado" escrito nas janelas das bilheteiras do Cinema São Jorge e centenas pessoas, já em vivência plena do festival IndieLisboa, à espera da oportunidade de terem uma viagem de finalistas sentadas na sala escura. Luzes apagadas e a música de Skrillex declarada - eis que começa o delírio. Como num concerto extravagante, o novo filme do cineasta norte-americano Harmony Korine quer ultrapassar-se para ser precisamente a promessa de uma experiência total e irrepetível que nos conduza a uma sensação de arrebatamento e de infinito. E tudo isto para que, no final, nos deixe plenos de... vazio.

Com Spring Breakers (Viagem de Finalistas) há pouco espaço para meias medidas - é nossa a decisão de recusar entrar num universo de energia e construção visual excêntricas, dominado por uma explosão de cor e elementos hiperestilizados. Os Cahiers du Cinéma chamam-lhe a anunciação de uma "revolução pop" - tanto mais não seja porque Harmony Korine, autor independentíssimo que vem aqui trocar as voltas à cultura mainstream dos EUA, escolheu integrar no grupo de protagonistas rostos como os de Selena Gomez (surgiu em destaque na série Disney Channel Os Feiticeiros de Waverly Place) ou de Vanessa Hudgens (aparece na trilogia High School Musical - também da Disney). A perversão de uma certa "inocência" deste imaginário audiovisual é levada longe: Korine fá-las entrar no crime para conseguirem dinheiro suficiente para umas férias (o célebre spring break norte-americano) e veste-as (ou despe-as) para as aproximar do sexo, do álcool e das drogas (bem longe da escola).

O resultado é desconcertante: Harmony Korine, que nos hipnotizou com as deambulações fantasmáticas dos adolescentes de Gummo (que também realizou) ou de Kids - Miúdos (que escreveu para Larry Clark), chega-nos desta vez com um emaranhado de clichés e uma linha narrativa rebuscada. Não é isso que lhe importa trabalhar, antes um certo mundo sujo e muito próximo do precipício. Se nos atiramos ou não com aquelas quatro raparigas - eis a decisão fundamental.

Quando tentamos perceber aquilo que Spring Breakers nos tenta mostrar (o sexo vivido no expoente e próximo da ideia de morte, o ilícito a ser perseguido...) lembramo-nos das direções de onde poderão vir. Os referentes chegam (a luminosa estética YouTube, o imaginário em torno de Britney Spears, a inspiração pop dos anos 2000) para nos levar a concluir que estamos diante de uma provocadora autoparódia, que quer insistir em questionar o fundamento dramático destas imagens.

Também James Franco, ator que se associou a este projeto, embarca na construção de um lugar-comum (o dealer milionário com mau-gosto) para piscar o olho ao estado das coisas: o modo como o "sonho americano" se corrompeu e destruiu pelo gosto sadio das armas e da guerra e por uma vontade trágica de fugir. É afinal isso que as quatro estudantes procuram - um spring break da realidade, das responsabilidades e da lei. Em busca do sexo, da libertação, do êxtase. Ou simplesmente da felicidade. Se essa demanda nos parece superficial... então é provável que tenhamos de rever o filme.

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