Sokurov recupera Fausto para filmar o mal do presente

Vencedor do Leão de Ouro em Veneza em 2011, "Fausto", que encerra uma tetralogia sobre o mal e o poder de Aleksandr Sokurov, chegou agora às salas de cinema portuguesa.

Título: 'Fausto'

Realização: Aleksandr Sokurov

Com: Johannes Zeiler, Anton Adasinsky, Isolda Dyschauk

Toda a fé do mundo depositada na criação de uma imagem. Herdeiro desta atitude devota face ao cinema, aliás já assumida por grandes cineastas como Andrei Tarkovsky, o também russo Aleksandr Sokurov devolve-nos agora, com o seu filme mais recente, toda a dimensão invisível, e por isso espiritual, que o cinema secretamente nos reserva. E em tempos em que se questiona o próprio consumo e consciência das imagens, é preciso estar preparado para o que Fausto tem para nos dizer.

Ainda que nos chegue com dois anos de atraso (estreou-se no Festival de Veneza em setembro de 2011, de onde saiu, não sem grande controvérsia e reações dissonantes, consagrado com o Leão de Ouro), Fausto não perdeu o seu vigor e pertinência - o que Darren Aronofsky, então presidente do júri em Veneza, reconheceu: "Há filmes que nos mudam depois de os vermos; este é um deles."

Eis uma afirmação que faz descobrir a "revelação" para a qual Fausto nos encaminha - na verdade, surge mesmo como o capítulo final de uma tetralogia sobre o mal e o poder e seus tristes efeitos, assim procedendo Moloch (1999), Taurus (2001) e Sol (2005). E ainda que se tenha debruçado sobre a vida de figuras que marcaram a nossa história (respetivamente: Hitler, Lenine e Hirohito), Sokurov viaja desta vez para o século XIX para nos trazer uma fábula que, só aparentemente, está longe do nosso tempo e da nossa realidade.

É uma livre interpretação do mito de Fausto, o homem das ciências que vende a alma ao diabo em troca do amor de Margarida e do conhecimento absoluto. A presença de Mefistófeles, que acompanha Fausto até o fim e é aqui uma figura grotesca e fascinante, acabará por nos despertar para as raízes da corrupção que se espalha no universo - como um conto moral em que nos apercebemos que somos parte de uma grande rede do mal.

Este lado profundamente alegórico que Sokurov, inspirado nas obras literárias de Goethe e até de Thomas Mann, não afasta da lenda alemã atira-nos para as teias de uma construção dramática densa, enfim resultando no desafio de diversas convenções narrativas.

A leitura simbólica é por isso também possível quando surge o confronto com a série de quadros que o espectador contempla - dizemos "quadros" lembrando-nos da dimensão inteiramente pictórica da construção visual deste Fausto, pontuado por um gosto romântico "perdido" nos valores estéticos de grande parte do cinema contemporâneo.

Cada imagem é pensada sob o signo de uma beleza distante e onírica que, de algum modo, resulta num movimento singular entre filme e espectador: as cores parecem prestes a morrer para, noutros momentos, se reavivarem com grande voluptuosidade (vide cenas com Margarida); o tempo e o movimento fluido no plano é privilegiado para favorecer uma sensação de imersão dentro do filme; a imagem sofre múltiplas distorções visuais, mantendo relações de proximidade e distanciamento com as personagens que, até o fim, vão sofrendo com agilidade diferentes mutações.

A esta complexa construção formal (a que não devemos esquecer o papel da banda sonora e da música) alia-se uma valorização de Sokurov quanto à utilização do digital e novas tecnologias para um filme que nos parece saído de um sonho medieval. Mas o mal, de alguma forma, persiste. Em 2013, Fausto fala para o futuro e para uma Europa incerta do seu futuro e imersa numa crise profunda - moral e artística. É dela que Sokurov nos parece estar a alertar, por exemplo no final, em que somos deixados frente às montanhas, à beira de um vazio descomunal, quase intolerável: desconheceremos sempre o caminho que o futuro e a morte nos reservam.

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