Pescadeiras de Vila Chã em novo filme de Gonçalo Tocha

Um dos quatro títulos do programa de produção Estaleiro a apresentar nesta edição do Curtas Vila do Conde, 'A Mulher e o Mar' levou Gonçalo Tocha a histórias de pesca protagonizadas por mulheres.

Em Vila Chã não há quem não conheça a história. Mas, feitas as contas, o realizador Gonçalo Tocha só encontrou três reportagens publicadas sobre as mulheres arrais daquela localidade do conselho de Vila do Conde. Mulheres que têm a seu cargo o governo de um barco de pesca. Ou, como uma voz nos explica depois no filme, "se passar da barra e houver homens a bordo, quem manda é ela"... E é em busca destas reportagens, publicadas em jornais, que entramos pelas imagens e histórias de A Mãe e o Mar, o novo documentário do autor do justificadamente celebrado É Na Terra Não É Na Lua (sobre a Ilha do Corvo), com o qual partilha algumas afinidades.

As primeiras imagens que vemos de Vila Chã lembram o ponto de vista com que começámos também a descobrir a ilha do Corvo em É Na Terra Não É Na Lua. A câmara está no mar, olhando a terra de perto. A equipa de rodagem contempla o espaço. Equipa que surgirá frequentemente no ecrã, sobretudo nos instantes de corte que, contra o que costuma ser regra na sala de montagem, acabam por ficar no filme, como que aproximando os observados daqueles que observam, tornando-os cúmplices numa história que assim é vivida em ambiente de partilha. Como se fosse contada entre amigos.

O método que Gonçalo Tocha usou na ilha do Corvo, ganhando confiança e familiaridade com aqueles que nos contam a história, a tranquilidade do ritmo de acontecimentos que traduz o respirar do lento dia-a-dia local (com o som do mar ao fundo) e a proximidade do mar são mesmo as mais evidentes afinidades deste para com o seu filme interior.

Gonçalo Tocha ficou fascinado pelas histórias das mulheres arrais e das pescadeiras de Vila Chã. São histórias mais do passado que do presente, das pescadeiras encontrando o filme já apenas uma. Chama-se Glória (Maria da Glória, para sermos precisos) e nasceu em 1947. Ela é quase a protagonista de A Mãe e o Mar, falando-nos da sua vida e ajudando-nos, em "entrevistas" que conduz com vizinhos, a conhecer as memórias de uma tradição antiga que tem expressão em mais cinco ou seis lugares no mundo. Em tempos havia 120 barcos em Vila Chã. Hoje restam nove, e cabem todos num dos planos que o filme mostra. Glória recorda as histórias desses barcos e de quem neles partia à pesca. A ela juntam-se a filha da Inês ou Carlos, marido de Inês, que lembra como ela andou no mar entre os 14 e os 20 anos, com cédula martitima. Depois ouvimos Guilherme, um homem do mar. E Cila Ramalheda. A eles juntam-se outros mais, entre conversas que a câmara escuta tecendo-se uma rede de recordações que fazem um retrato daquele lugar e daquelas vidas.

O sargaço. O farol. A praia... Sem a vastidão dos horizontes do Corvo, A Mãe e o Mar vive num espaço mais fechado. É um filme crú. Mas contribui para o vincar de uma linguagem que, aos poucos, define em Gonçalo Tocha uma voz muito particular no cinema do nosso tempo.

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