'O Leitor' revisita a memória do Holocausto

Chegou esta semana às salas de cinema portuguesas um dos filmes com maior número de nomeações (cinco) para os Óscares de Hollywood.


O Leitor, adaptação do livro de Bernhard Schlink (ver entrevista) é sobre os traumas da história da Alemanha (e da Europa) que regressam numa intriga que também tem uma dimensão de tragédia amorosa

Esta é uma história que abalou o mundo. Publicado em 1995, o romance O Leitor, de Bernhard Schlink, relançou algumas perturbantes questões sobre a II Guerra Mundial, o extermínio dos judeus pelos nazis e a memória colectiva da Alemanha. Ao abordar a paixão de Hanna Schmitz, que foi guarda do campo de concentração de Auschwitz, e Michael Berg, um jovem estudante de Direito, Schlink propõe um dramático ziguezague temporal: entre a década de 50 e os últimos anos do século XX, são os traumas da história da Alemanha (e da Europa) que regressam através de uma intriga que tem também dimensão de tragédia amorosa.

A adaptação cinematográfica, dirigida por Stephen Daldry (realizador de Billy Elliot e As Horas) prolonga o efeito do livro (que, aliás, se tornou referência obrigatória dos estudos universitários sobre o Holocausto). A presença do filme na actual temporada de prémios tem também contribuído para o seu impacto: Kate Winslet (intérprete de Hanna) já arrecadou distinções, incluindo um Globo de Ouro para melhor actriz secundária e os prémios de interpretação da Screen Actors Guild (organização americana dos actores) e dos BAFTA ("óscares" britânicos). Para os Óscares de Hollywood, o filme está bem colocado, com cinco nomeações, incluindo melhor filme; as outras são de Daldry (realização), Winslet (actriz) David Hare (argumento adaptado) e Roger Deakins/Chris Menges (fotografia).

O aparecimento de O Leitor é indissociável de nova vaga de títulos sobre a II Guerra Mundial. Recordemos Resistentes, de Edward Zwick, sobre os judeus da Polónia e a invasão nazi, e Valquíria, de Bryan Singer, centrado na conspiração para matar Hitler, em 1944. Aqui, estamos face a um drama intimista que remete para a herança de culpas que vem da Guerra e, especificamente, o modo como essa herança é vivida pelas diferentes gerações.

Na actual produção americana, O Leitor ocupa importante lugar simbólico. Foi um dos derradeiros títulos a que ficaram ligados (como produtores) dois cineastas falecidos em 2008: o americano Sydney Pollack e o inglês Anthony Minghella. Depois porque o seu impacto, em especial nos Óscares, poderá ser fundamental para a consolidação da Weinstein Company, através da qual os irmãos Weinstein tentam recuperar o papel que assumiram enquanto directores da Miramax (que abandonaram em 2005). Recorde-se que eles foram decisivos na afirmação de novo conceito de "produção independente", através de títulos como O Carteiro de Pablo Neruda (1995) ou O Paciente Inglês (1996). Agora, distribuidores de O Leitor, os Weinstein apostam no relançamento de um modelo que os distinguiu: o filme que reflecte sobre os labirintos da história, ao mesmo tempo que preserva uma dimensão melodramática enraizada em modelos do mais tradicional cinema popular.

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