O futuro do cinema segundo Larry Clark

Apesar de ter estreado (e vencido) no Festival de Roma, "Marfa Girl" nunca mais regressará a uma sala de cinema. Para o vermos precisamos de uma ligação à Internet.

Título: 'Marfa Girl'

Realização: Larry Clarke

Com: Adam Mediano, Drake Burnette, Jeremy St James, Mary Farley

Distribuição: disponível em larryclark.com

Classificação: 5 / 5

Sinopse: Entre a paisagem semi desértica de uma cidade fronteiriça no Texas, um jovem vive a descoberta da sexualidade numa comunidade onde convivem a música punk e ateliers de artistas plásticos, sob a presença vigilante (mas perturbante) de um oficial da guarda.

Há uma beleza profunda, quase hipnótica, nas paisagens semidesérticas de Marfa, pequena cidade do Oeste do Texas habitada por poucas centenas de pessoas e longe de qualquer centro urbano (as localidades mais próximas ficam a mais de 30 quilómetros). Uma beleza que, na verdade, se tornou obsessão de alguns artistas que lá viram um espaço de encontro com o minimalismo (é o caso de Donald Judd, que se mudou para a cidade nos anos 70 e, com as suas construções gigantes, lançou Mafra como um dos pontos fundamentais da arte moderna) ou com a luz - marcada por um tom misterioso e fantasmagórico (não falta quem a aponte como um fenómeno sobrenatural), ela foi já referida pelos Rolling Stones, em No Spare Parts, um inédito de 1978 finalmente lançado em 2011.

O fotógrafo e cineasta Larry Clark foi o mais recente a redescobrir o céu e as paisagens deste oásis da elite artística seguindo a tradição de um cinema que se tem tornado, aos poucos, cada vez mais distante. Em Marfa, por exemplo, filmaram-se em 2006 Haverá Sangue, de P. T. Anderson e Este País não é para Velhos, dos irmãos Cohen (premiado pela Academia com o Óscar de melhor filme). Títulos que, no fundo, recuperam este espaço árido e sedutor descoberto em Gigante (1956), de George Stevens, último filme com James Dean.

Em Marfa Girl, a mais recente longa-metragem de Larry Clark, vamos de encontro aos fantasmas que povoam este sítio de nenhures - os fantasmas de uma juventude perdida que hoje se move com a mesma potência solitária e desejo de independência e liberdade de um James Dean. E é isto que Larry Clark nos dá a ver naquele que é um dos seus filmes mais belos (a fotografia é de David Newbert) e sensíveis às ideias de amor e proteção - que começou por tocar desde logo na sua primeira provocadora obra, Kids - Miúdos (1995), e percorre na série de filmes controversos que, aos poucos, os EUA decidiram aprender a ignorar, como Ken Park - Quem és Tu? (2002) ou Wassup Rockers - Desafios da Rua (2005).

Sete anos depois, Larry Clark regressa a uma nova fase do seu cinema, desta vez, parece-nos, para ficar (está em vista a estreia de The Smell of Us, uma nova longa-metragem, para este ano). Marfa Girl está apenas disponível na Internet, em streaming no site oficial do realizador durante 24 horas após a compra de um bilhete virtual. Esta é uma estratégia que representa mesmo uma resposta ao cansaço que sente por aqueles que adjetivou à revista Filmmaker como "vigaristas" por aparentemente nunca lhe pagarem: os "produtores, intermediários e tudo o resto". Ao mesmo tempo, podemos vê-lo como um modelo "que é o futuro e o futuro é agora", como Clark disse no Festival de Cinema de Roma, onde o filme estreou (foi a única vez que o pudemos ver no grande ecrã) e venceu o prémio principal. No fundo, um sinal de um tempo da globalidade e da ligação pela Internet que tenta contornar um monstro chamado pirataria. Longe (muito longe) desses problemas está a fúria de viver dos adolescentes que Larry Clark filma de modo tão obsessivo como assombrado, com um forte gosto realista.

Retomando umas das imagens centrais do seu último filme - a imigração latino-americana, a música, o skate... -, viajamos entre as paisagens do deserto de Marfa e dos corpos deste filme, preenchidos por um desejo de livre vivência da sexualidade. Um olhar que, no entanto e ao contrário das mais banais representações da adolescência, não esquece tudo o que há de solitário e intransmissível nesse desejo. Ao mesmo tempo, Larry Clark desenha um contraponto - entre o protagonista de 16 anos e um agente adulto da guarda fronteiriça que vigia a sua família - de um modo que parece levar-nos à configuração de um western clássico... Tudo isto para que, no final, sejamos confrontamos com uma velha questão que se coloca, aqui, por intermédio de um ecrã de computador: "para quem nos mantemos vivos?"

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