"Lawrence da Arábia": a génese de uma epopeia

O clássico de David Lean fez 50 anos em 2012 e volta hoje em cópia restaurada digitalmente. Mas o realizador queria, inicialmente, filmar uma vida de Gandhi escrita por Camus.

Título: 'Lawrence da Arábia'

Realização: David Lean

Classificação: 5/5

O cinema tem destas ironias. No início, David Lean não queria fazer um filme sobre o arqueólogo, autor e carismático militar britânico T. E. Lawrence, que comandou as tribos árabes contra os turcos, aliados dos alemães, no Médio Oriente, durante a I Guerra Mundial.

Depois de haver assinado, em 1957, A Ponte do Rio Kwai, passado na II Guerra Mundial, Lean tinha a sua conta de histórias de soldados e guerra. Fascinado pela Índia, que visitara anos antes, o realizador ambicionava filmar a vida do maior símbolo do pacifismo do século XX e líder político e espiritual indiano, o Mahatma Gandhi, com Alec Guinness no papel principal.

Só que David Lean não gostou do primeiro argumento, escrito pelo seu amigo e colega Emeric Pressburger. E não conseguiu interessar o Prémio Nobel da Literatura Albert Camus (que entretanto morreria num desastre de automóvel), em substituir Pressburger e o romancista Romain Gary, como autor do argumento do seu tão desejado filme sobre Gandhi.

Lean acabou por desistir do projeto ao ser abordado pelo produtor Sam Spiegel, com quem havia feito o lucrativo e premiado A Ponte do Rio Kwai, para filmar os feitos militares e sondar a personalidade daquele homem solitário e enigmático, mas também exibicionista, que ficou para a posteridade como Lawrence da Arábia, o autor de Os Sete Pilares da Sabedoria. (Em vida, T.E. Lawrence rejeitou sempre qualquer proposta de filme sobre si).

No ano passado, foram assinalados os 50 anos da estreia de Lawrence da Arábia (1962), vencedor de sete Óscares, e para muitos o melhor e mais emblemático filme de David Lean. (Que revelou também um então desconhecido ator irlandês com 28 anos, Peter O"Toole, muito recomendado ao realizador por Katharine Hepburn, que o tinha visto no palco em Londres.) A fita é reposta hoje em Portugal na cópia restaurada digitalmente para a comemoração do meio século da estreia, e com a metragem original: 216 minutos.

Sam Spiegel tinha posto o carro à frente dos bois quando seduziu David Lean para ser o realizador de Lawrence: não tinha nem argumento, nem actor principal. Para o argumento, e depois de Michael Wilson, que havia trabalhado em A Ponte do Rio Kwai, ter sido contratado e depois despedido, veio o professor e dramaturgo Robert Bolt. E após Albert Finney ter durado quatro dias no papel de Lawrence antes de desistir, e de Marlon Brando, Anthony Perkins, Montgomery Clift e Richard Burton terem sido considerados e abandonados, Peter O"Toole foi escolhido, embora fosse bem mais alto que T.E. Lawrence.

O filme demorou mais de meio ano a ser rodado na Jordânia, em Marrocos, em Espanha e em Inglaterra. A célebre cena da miragem com Omar Sharif foi feita com uma lente concebida especialmente para o efeito, e que nunca mais foi usada, e a cidade de Aqaba foi recriada de raiz em Almeria.

O espectáculo épico nunca menoriza nem sufoca a dimensão humana da história em Lawrence da Arábia, que regressa ao sítio a que pertence: o cinema. Porque o deserto, a guerra e um destino único, pedem as vistas largas de uma tela.

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