'As Bailarinas': Vagabundos da França de 1974

Foi um dos fenómenos mais populares da produção cinematográfica francesa em meados da década de 70: 'As Bailarinas', com Gérard Depardieu, Patrick Dewaere e Miou-Miou, está de volta às salas portuguesas.

Título: 'As Bailarinas'

Realização: Bertrand Blier

Com: Gérard Depardieu, Patrick Dewaere e Miou-Miou

Distribuição: Leopardo

Classificação: 2 / 5

Em 1974, o mercado cinematográfico francês viveu uma odisseia de grandes contrastes e algumas polémicas. Desde logo, porque esse foi o ano de lançamento de Emmanuelle, com Sylvia Kristel a dar corpo (!) a todo um imaginário erótico que, para o melhor e para o pior, ficou como símbolo da época e do seu complexo ajuste de contas com a herança "libertária" da década de 60. Depois, porque através de Lacombe Lucien, o Colaboracionista Louis Malle se atreveu a expor algumas contradições ideológicas das memórias da Segunda Guerra Mundial. Enfim, porque com As Bailarinas (de regresso às salas portuguesas), Bertrand Blier fez uma crónica insólita, poética e provocatória de uma França que parecia já não acreditar na radiosa felicidade prometida pela "sociedade de consumo". Há, por isso, em As Bailarinas um testemunho que a passagem do tempo transformou em símbolo: esta é uma paisagem social em que os emblemas do sucesso (a "família", o "carro", o "consumo") contrastam com a emergência de personagens "não alinhadas", entregues a uma existência errática. Daí a escolha de Blier, aliás tomando como ponto de partida um romance de sua autoria: os seus heróis (ou anti-heróis) são dois jovens sem pouso certo, hábeis em pequenos roubos e traficâncias, num processo de permanente fuga para a frente, sem outro objectivo palpável que não seja a mais básica sobrevivência. Por certo importante para o impacto do filme na estreia foi a revelação do seu trio de protagonistas: Gérard Depardieu e Patrick Dewaere, os dois "vagabundos", e Miou-Miou, a empregada de um cabeleireiro que acaba por lhes fazer companhia. Qualquer um deles tinha já uma actividade significativa, em papéis secundários, por vezes em títulos de grande sucesso: Depardieu filmara sob a direcção de Alain Resnais, em Stavisky (1973); Dewaere integrara o elenco de Os Noivos da Revolução (1971), grande produção centrada em Jean-Paul Belmondo; enfim, Miou-Miou tinha participado em As Aventuras do Rabi Jacob (1973), uma das comédias do muito popular Louis de Funès. O certo é que foi com As Bailarinas que os seus nomes se impuseram num contexto cinematográfico pós-"Nouvelle Vague", marcado também pelo desaparecimento de alguns dos mestres clássicos do cinema francês (Marcel Pagnol, por exemplo, faleceu nesse mesmo ano de 1974). Aliás, vale a pena recordar que Bertrand Blier é, ele próprio, alguém ligado à árvore genealógica do classicismo francês, uma vez que o seu pai, Bernard Blier (1916-1989), foi um dos actores revelados no arranque do cinema sonoro, com uma filmografia de quase duas centenas de títulos (chegou a trabalhar sob a direcção do filho, nomeadamente em Crimes a Sangue Frio, de 1979, também com Depardieu). A maior consagração do cineasta ocorreria em torno de uma produção de 1989, Bela de Mais para Ti, um melodrama com algumas componentes de irónica comédia, protagonizado por Carole Bouquet e, de novo, Depardieu: nesse ano, no Festival de Cannes, o filme foi distinguido com o Grande Prémio do Júri; no ano seguinte, arrebatou os principais prémios do cinema francês (Césares), incluindo melhor filme e melhor realizador.

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