'Fuga': História de amor na América profunda

Do mesmo autor de 'Histórias de Caçadeira' e 'Procurem Abrigo', o novo 'Fuga' (em exibição) leva-nos ao Arkansas, onde o realizador Jeff Nichols nasceu e viveu a sua juventude

Título: 'Fuga'

Realização: Jeff Nichols

Com: Matthew McConaughey, Tye Sheridan, Reese Witherspoon, Michael Shanon e Sam Shepard

Quando vimos a tempestade que se avizinhava no final de Procurem Abrigo percebemos depressa que o conto de Noé filmado por Jeff Nichols tinha menos de profecia escatológica alinhada com a série de filmes de final do mundo que percorreram as salas de cinema até aos últimos dias de 2012 e muito mais de humano, ligado à resiliência de um homem cuja missão era a de proteger a sua família da separação e da morte.

Desta vez, e sem grandes efeitos especiais, o amor regressa como valor supremo naquele que nos parece ser o filme do realizador mais distinto dos seus esforços no campo do cinema independente norte-americano. Talvez Fuga devesse ter conservado, no momento em que já o podemos ver em sala em Portugal, o seu título original - Mud, que nos remete não apenas para o nome do personagem sobre a qual todos os acontecimentos parecem convergir (interpretado por Matthew McConaughey) mas também à imagem de lama (mud) que acompanha toda a atmosfera e território de um objeto curiosamente inspirado na indesejada experiência de ter alguém a despedaçar-nos o coração.

Jeff Nichols sofreu esse sentimento pela primeira vez durante a adolescência e esperou até 2008 para escrever o argumento de Fuga, começar a escavar sobre as suas dores de crescimento e, enfim, filmar envolto nas memórias pessoais e na vivência em Little Rock, capital do Arkansas, a paisagem sudeste dos EUA que aqui delineia os espaços do filme. O encontro, ainda na juventude, com o livro de fotografias The Last River: Life Along Arkansas's Lower White, terá também ajudado a aclarar o desejo de documentar, tal como o fotógrafo Turner Browne o fez, o espírito sulista das comunidades de pescadores que vivem nas margens do rio Mississípi.

O resultado é um cruzamento luminoso entre As Aventuras de Tom Sawyer e as de Huckleberry Finn que originou aquele que é o filme mais ambicioso de Jeff Nichols que, grosso modo, nos conduz a uma pequena ilha onde se abriga, num barco no cimo de uma árvore, um homem acusado de homicídio (McConaughey) descoberto por dois rapazes que se determinam a ajudá-lo a recuperar Juniper, o amor da sua vida. Confrontam-se as ilusões de um amor romântico com as contradições das relações do presente - Nichols fala-nos do choque do divórcio, da mágoa da traição e da perda da inocência num tom totalmente subjugado à estrutura da sua grande narrativa e, a dado momento, às convenções de género (o thriller).

Fuga é, de facto, o título em que o cineasta dirige, qual romancista, mais personagens, conflitos e temas, acabando por ceder a um desejo de esclarecimento que surge como a maior fragilidade do filme. A sua maior proeza parece incidir não no olhar sobre a paisagem (vista com uma câmara que pretende flutuar como a água do rio) ou na aventura escrita - mas na proximidade com os seus atores, particularmente com a verdadeira promessa chamada Tye Sheridan, o rapaz-protagonista cujo nome foi sugerido por Sarah Green, produtora de Fuga e também de A Árvore da Vida, onde Terrence Malick o filmou com a graça absoluta.

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