"É a história que conta, não os efeitos especiais"

Conversa exclusiva com o realizador e intérprete de 'Gran Torino'.

Clint Eastwood, realizador e intérprete de 'Gran Torino', que se estreia hoje em Portugal, falou em Paris com o DN sobre este filme, em que personifica um veterano da guerra da Coreia, misantropo e rude, que protege dois jovens vizinhos asiáticos de um 'gang' étnico que aterroriza o bairro onde vivem. 'Gran Torino' é nesta altura o maior sucesso comercial de toda a carreira de Eastwood


O seu primeiro filme, Play Misty for Me (Destino nas Trevas) foi feito em 1971. Desde então, qual o papel da sua companhia, Malpaso, no seu trabalho como realizador?

A Malpaso deu-me a independência, precisamente quando eu mais precisava dela. Estava empenhado em não fazer filmes sempre do mesmo género: gostava muito dos westerns que fiz, com Sergio Leone e outros, mas queria também realizar e experimentar coisas diferentes.

Mas até mesmo em Gran Torino há uma componente de western, quanto mais não seja por causa do tema da terra e da propriedade.

A minha personagem, Walt Kowalski, é um homem que lutou pelo seu país e se reinstalou onde vivia. Agora, depara com uma vizinhança que já não é predominantemente de origem polaca, como ele, mas asiática, da comunidade "hmong". O filme é sobre os seus preconceitos e a maneira como os acontecimentos o impelem a agir. Mas é também sobre o momento em que, por vezes, os mais novos se tentam livrar dos velhos, colocando-os em instituições. Claro que ele é o primeiro a reconhecer que não terá sabido estabelecer uma relação com os filhos. O certo é que descobre naquele obscuro grupo asiático outro respeito pelos mais velhos. Daí que um dia se olhe no espelho e diga: "Tenho mais em comum com esta gente do que com a minha desgraçada família". Podia ser um western. Mas é também muito contemporâneo.

Nesse sentido, aceita que se diga que o filme é testemunho sobre o actual melting pot americano?

Sim. Mas é também sobre o reconhecimento de que é possível aprender coisas novas em todas as idades: é sempre possível aprendermos a tolerância em relação aos outros. O que, em todo o caso, não impede a minha personagem de estar em conflito com a sua igreja e também com a família.

Podemos encarar o filme também como uma visão sobre a religião?

Kowalski provoca o padre, mas o certo é que as coisas vão mudando e ele acaba por ir à confissão. O interessante é que tudo isso abre novas possibilidades de vida. Na verdade, não tenho de me reconhecer em nada do que é contado, são apenas coisas que gosto de representar. Aliás, por vezes, é muito mais divertido representar pessoas com as quais nada temos em comum.

O elenco de Gran Torino é quase todo composto por amadores. Que diferenças há entre trabalhar com actores sem experiência profissional e alguém, por exemplo, como Angelina Jolie?

Bem, é um prazer trabalhar com Angelina Jolie... No caso de Gran Torino, comecei por pensar em actores profissionais de origem asiática. Até que senti que valia a pena procurar no interior da própria comunidade "hmong". Deparámos com muita gente disponível, ansiosa por entrar no filme. E acabei por encontrar os dois jovens (Bee Vang e Ahney Her) que, de facto, tinham um "não sei quê" de especial. Apesar do sucesso, antes do mais nos EUA, não se pode dizer que Gran Torino seja um típico filme de Hollywood.

Como realizador, e como espectador, qual é a sua relação com os filmes de acção, dominados por efeitos especiais?

Os efeitos especiais são magníficos. Os efeitos visuais, em particular, evoluíram imenso e eu próprio os tenho usado, por exemplo em As Bandeiras dos Nossos Pais. Mas, para mim, é a história que conta. Não me interessa fazer esses filmes de efeitos especiais como uma espécie de ginástica. Gosto das histórias. Cresci a ver filmes com histórias. Por exemplo, no caso de A Troca tive de usar alguns efeitos para recriar Los Angeles em 1928, mas era a história que valia. Cada filme tem que ter algo que seja apelativo, uma história que valha a pena contar.

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