Como sobreviver depois de 'Amour'?

O novo filme de Michael Haneke, vencedor da Palma de Ouro em Cannes este ano, acompanha um casal de idosos num processo de degradação progressiva da saúde de um dos seus elementos.

Quando, na edição deste mês dos Cahiers du Cinéma, vimos a capa ("Haneke: amor e misantropia") e o especial dedicado ao cineasta austríaco, pressentimos que França se dividia então em dois. Tanto mais quando Jean-Philippe Tessé (num artigo intitulado "Mal Mal Mal") começa por questionar diretamente Gérard Lefort, crítico de cinema do diário francês Libération, que por sua vez começou o seu texto de opinião sobre o novo filme de Michael Haneke da seguinte forma: "quem não chorar perante a visão de Amour poderá ser razoavelmente tratado como filho da puta."

Isto pode mostrar perfeitamente como o vencedor de uma segunda Palma de Ouro (em três anos) do Festival de Cannes inspira ódios e paixões, repulsa e entrega. Amour, filme que ontem pudemos ver no Lisbon & Estoril Film Festival e que estreia nas salas de cinema portuguesas no próximo dia 6 de dezembro, também nos traz isso - o amor como a vida, tão cruel como compulsivo. E o resulta é um filme devastadoramente belo. Um filme que, para o bem ou para o mal, nos faz questionar: mas afinal como é que pode ser possível sobreviver depois de Amour?

O ponto de partida é muito simples: um casal de ex-professores de música octogenários, interpretados por duas figuras de peso na história do cinema (Jean-Louis Trintignant, que surge no último filme de Kieslowsky, Três Cores: Vermelho, de 1994, e Emmanuelle Riva, protagonista de Hiroshima mon Amour, de Alain Resnais, de 1959), confronta-se com a degeneração terminal da saúde da mulher.

Haneke não faz concessões a um motivo dramático que já é, em si, perturbador. Em vez disso, agudiza aquela que é a nossa experiência como espectadores passivos e, através de um trabalho apurado de manipulação, leva ao limite as emoções e a moral que elas acompanham. E o que emerge? Um filme de uma infinita angústia (tal como era o seu primeiro filme, do qual Haneke nunca se descolará, O Sétimo Continente) - mas, também, de infinito amor pela humanidade.

Pela primeira vez, Haneke parece tocar dimensões que nunca antes tinha alcançado - através do seu olhar cru e "objetivo" (entre aspas porque estamos a falar do cineasta que assume que o cinema são "24 mentiras por segundo"), o realizador transporta-nos para o sublime - há sequências imbuídas por uma melancolia e solidão implacáveis (as cenas da casa vazia, as do corredor ou as que incluem Isabelle Huppert, a filha do casal, são inexprimíveis em palavras), por uma atmosfera onírica, como se o real e o sonho fossem o mesmo, e por um profundo amor à arte e à música (o pianista francês Alexandre Tharaud surge inclusivamente no filme, interpretando peças de Schubert e o papel de aluno da ex-professora).

Por fim, falta-nos talvez relembrar que não é a maior ou menor previsibilidade do desfecho que nos demove de ficar comovidos com um filme tão grande como a própria vida, que nos relembra que o cinema não precisa de se descolar do real e da intimidade para nos devolver uma profunda sensação de absoluto.

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