Cinema português está em "período de coma"

Os realizadores Miguel Gomes, João Salaviza e Gonçalo Tocha foram hoje ao Parlamento dizer aos deputados que o cinema português está "a viver um período de coma" e que este ano não haverá produções.

Os três realizadores estiveram hoje na comissão parlamentar de Educação, Ciência e Cultura, onde foram elogiados pelos deputados pelos prémios que conquistaram recentemente para o cinema português.

"É com um sabor muito amargo que estamos aqui a celebrar estes sucessos e sabemos que provavelmente não vamos ter condições para filmar nos próximos anos", disse João Salaviza, que em fevereiro conquistou em Berlim o prémio Urso de Ouro pela curta-metragem "Rafa".

Os realizadores apelaram para que a proposta de lei do Governo para o cinema e audiovisual seja aprovada o mais rápido possível e alertaram ainda para a falta de orçamento do Instituto do Cinema e do Audiovisual (ICA), para o apoio às produções.

Miguel Gomes, premiado em fevereiro no Festival de Berlim pelo filme "Tabu", ainda transmitiu uma mensagem do cineasta Manoel de Oliveira, que sumariza o estado de espírito dos realizadores portugueses: "Parar é morrer".

Gonçalo Tocha, autor do premiado documentário "É na terra não é na lua", recordou também que está por aplicar a lei sobre a intermitência das artes do espetáculo, e que muitos trabalhadores dependem das produções de cinema para terem emprego.

No final da curta audiência, que contou com intervenções de deputados dos diferentes partidos, o realizador Miguel Gomes disse aos jornalistas que desconhece "o resultado prático" de um encontro como o de hoje.

"Não queremos entrar num jogo de hipocrisia política. Por um lado vemos reconhecido as conquistas feitas com os nossos filmes e, ao mesmo tempo, viemos aqui dizer que esses filmes foram feitos porque existia uma política cultural que determinava que é importante para um Estado que exista uma cinematografia nacional independentemente das condições de mercado", disse Miguel Gomes.

"Nós queremos perceber o que é que vai ser feito para resolver a lei e assumir de facto se o Estado, em termos de Constituição, quer ou não investir na cultura", adiantou Gonçalo Tocha.

Os três realizadores foram ao Parlamento na véspera dos profissionais do setor realizarem uma ação, à porta da Assembleia da República, de apelo à aprovação rápida da nova lei para o cinema e o audiovisual.

A iniciativa, que decorrerá na amanhã à noite, consistirá na projeção na rua de um filme que é uma montagem de excertos de vários filmes portugueses feitos ao longo de cem anos.

Na semana passada, mais de vinte profissionais do setor fizeram um ultimato ao Governo, para que aprove a legislação, e anunciaram que vão pedir uma audiência ao primeiro-ministro.

Segundo a Secretaria de Estado a Cultura (SEC), a nova lei deverá ser aprovada até ao final de junho.

Por causa da aprovação desta legislação, a tutela suspendeu os concursos de apoio financeiro do Instituto do Cinema e do Audiovisual (ICA) para 2012, alegando que o organismo não tem orçamento.

A SEC mantém a reabertura de concursos no segundo semestre deste ano, embora haja ainda muitos apoios financeiros de 2011 pendentes e sem atribuição de verbas.

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