'Cativos' - Odisseia de reféns de terroristas nas Filipinas

Estreia-se hoje em Portugal 'Cativos', do filipino Brillante Mendoza, baseado em factos reais: o rapto de um grupo de turistas ocidentais e de filipinos por separatistas islâmicos.

Título: 'Cativos'

Realização: Brillante Mendoza

Com: Isabelle Hupert, Maria Isabel Lopez, Joel Torre

Classificação: 4 / 5

Durante muitos anos, a única notícia que chegava a Portugal do cinema das Filipinas tinha a forma dos filmes de Lino Brocka (1939--1991), autor de títulos como Insiang, o Lírio de Manila (1976) ou Jaguar (1979). Brocka era um dos poucos realizadores que procuravam fugir à produção de massa e à hipercomercialização da maior parte da atarefadíssima indústria cinematográfica filipina, atolada em produções eróticas (os chamados bomba films), cópias de géneros ocidentais como o western e o filme de espionagem, comédias, melodramas ou musicais juvenis. Boa parte dos seus filmes foi rodada sob a censura imposta pela lei marcial decretada pelo Governo ditatorial de Ferdinando Marcos em 1972.

Como Lino Brocka era um realizador social e politicamente empenhado e refletia esse ativismo nos seus filmes, em que denunciava os aspetos mais chocantes e as desigualdades da sociedade filipina, assim como as prepotências do regime de Marcos, chegou a estar preso na década de 70. O seu Insiang, o Lírio de Manila, um melodrama brutalmente realista passado em Tondo, o maior bairro da lata de Manila, foi o primeiro filme filipino a ser exibido no Festival de Cannes.

Embora trabalhe num contexto político diferente, muito mais aberto, daquele que Lino Brocka conheceu, e não seja um ativista militante como este, Brillante Mendoza revela nos seus filmes influências dessa figura tutelar do cinema filipino moderno e uma independência de produção e de espírito semelhante à de Brocka.

Títulos como Serviço (2008), Lola (2009) ou Kinatay (2009, os dois primeiros vistos em Portugal, refletem o interesse e a preocupação de Mendoza pela vida quotidiana e pelas dificuldades, dramas e dilemas dos seus conterrâneos, sem transigir com o paternalismo fácil, o miserabilismo mendigante ou o realismo rebuscado.

Cativos esteve em competição no Festival de Berlim, após ter sido recusado em Cannes e em Veneza. É o filme mais desafogado de Brillante Mendoza em termos de orçamento, contando com Isabelle Huppert no papel principal. Baseado em factos reais ocorridos em 2001, Cativos apresenta a longa odisseia de um grupo de turistas ocidentais e de filipinos feitos reféns pelos separatistas islâmicos do Abu Sayaff, recriada pelo realizador sem clichês maniqueístas de qualquer tipo e transmitindo os aspetos físicos, emocionais e psicológicos mais extremos de uma tal experiência.

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