'À Procura de Sugarman': em busca de um herói esquecido

O documentário que este ano arrebatou nos Óscares e nos BAFTA, "À Procura de Sugar Man", traça o retrato de um nome esquecido da música norte-americana: Rodriguez.

Entre 1970 e 1971 Sixto Rodriguez, cantautor norte-americano de ascendência mexicana, lança dois álbuns. Chegam a apontá-lo como "o novo Bob Dylan". As fracas vendas e a atenção quase nula da crítica levam ao seu desaparecimento. Inesperadamente, torna-se um sucesso estrondoso na África do Sul, ainda que o próprio músico, à época, não tenha qualquer noção desse impacto. Começam a nascer os mitos, entre os quais o de que teria cometido suicídio em palco. No final dos anos 90 dois fãs originários da Cidade do Cabo iniciaram uma busca para desvendar o mistério em torno de Rodriguez.

À Procura de Sugar Man, o documentário de Malik Bendjelloul, regista esta "missão", e venceu quase 30 prémios ao longo do último ano, entre os quais o Óscar de Melhor Documentário. Chegou esta semana às salas portuguesas. Mas afinal o que é que aconteceu a Rodriguez depois de lançar os álbuns Cold Fact (1970) e Coming from Reality (1971)?

O mito do suicídio provou-se não ser mais do que isso mesmo. Depois da editora o ter dispensado, dado os fracos resultados desses discos, Rodriguez abandonou parcialmente a música e passou a trabalhar na construção civil. Se as suas canções revelavam um homem fiel a valores sociais e humanistas, ao longo dos anos manteve-se localmente ativo a nível político, ajudando as classes trabalhadoras de Detroit (onde ainda hoje vive) e tendo concorrido no final dos anos 80 à Câmara Municipal da cidade onde nasceu. Quase todo o dinheiro que ganha tem sido entregue à família e aos amigos mais próximos. Ainda hoje vive na mesma casa de há 40 anos, não tem carro, nem computador ou televisão (quando o documentário sobre o seu percurso venceu o Óscar, estava a dormir).

À Procura de Sugar Man traça este retrato de um músico esquecido para muitos. Mas não para todos. Isto porque enquanto a África do Sul vivia sob o regime do apartheid, o primeiro álbum de Rodriguez deu à costa e tornou-se uma referência maior para os jovens brancos que também contestavam o regime. Cold Fact acaba por vender quase um milhão de cópias só na África do Sul, apesar de Rodriguez nada saber do facto.

Até que nos anos 90 dois fãs acérrimos conseguem encontrá-lo. E convencem-no a dar uma série de concertos (esgotados) em grandes salas sul-africanas. "Para nós é quase como se descobríssemos que o Elvis estava vivo", diz um dos entrevistados. Entretanto esses dois únicos álbuns foram reeditados e a aclamação do documentário contribuiu para que desde o ano passado o músico tenha vindo a ser redescoberto por cada vez mais pessoas. Já atuou em programas televisivos de Jay Leno e David Letterman, passou pelo festival de Coachella, esteve para tocar no Optimus Primavera Sound (mas cancelou) e este mês vai a Glastonbury. Graças a um filme, Rodriguez vive agora uma segunda vida.

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