Cinema com espírito de grupo

Tal como os jornalistas de The Post, os heróis coletivos surgem em vários outros trabalhos de Steven Spielberg

Quando pensamos no universo de Steven Spielberg, dentro da sua variedade, somos inevitavelmente conduzidos a imagens como as de Tubarão (1975), E.T. - O Extraterrestre (1982), a saga Indiana Jones ou A Lista de Schindler (1993). Mais particularmente, e simplificando, ocorre-nos de imediato a referência dos heróis dessas fitas, quer seja uma doce criatura alienígena ou o nobre Liam Neeson na pele do homem que salvou mais de mil judeus durante o Holocausto.

No entanto, se olharmos mais de perto alguns destes filmes, e outros do mesmo realizador, é possível perceber neles uma determinante noção de coletivo: veja-se o monstro das águas que instala o medo numa comunidade, em Tubarão, levando um grupo de homens a juntar-se dentro de um barco para o caçar, ou os sobreviventes que, no final de A Lista de Schindler, se dirigem à campa do benfeitor, como protagonistas de uma parte da história da humanidade que não pode, nem deve, cair no esquecimento.

Com a estreia de The Post, somos reconduzidos a essa consciência de um cinema marcado pelo coletivo. Digamos que Meryl Streep e Tom Hanks, embora sejam aqui os atores na primeira linha, com os respetivos papéis da proprietária e do editor executivo do The Washington Post, não representam a dinâmica total do filme: eles são parte de uma narrativa conjunta que, em última instância, se refletiu na própria sociedade americana. Falamos do caso dos Papéis do Pentágono, e do conjunto de jornalistas que trabalharam a monumental documentação, em tempo recorde, para que o jornal exercesse o seu direito de informar. Na essência, The Post é sobre este processo de interajuda laboral.

Que outros exemplos de performance coletiva encontramos na filmografia de Spielberg? Talvez nenhum seja tão justo como O Resgate do Soldado Ryan (1998). Com efeito, esta história de um grupo de soldados com a missão de encontrar outro militar, que deve regressar a casa, tem tudo aquilo que representa a ideia do herói coletivo - incluindo as dúvidas da incumbência que atormentam alguns elementos. Como a certa altura se ouve dizer: "Que sentido tem arriscar a vida de oito pessoas para salvar uma?" Esta é a nobreza do gesto sobre o qual se reflete ao longo do filme.

Numa outra escala, podemos referir ainda A Guerra dos Mundos (2005) - "We"re under attack" - que ensaia o vínculo da família no âmbito da catástrofe global; mas também Munique (2005), o filme sobre os eventos que se seguiram ao massacre nos Jogos Olímpicos de 1972, centrado na ação secreta da Mossad, com um coro de cinco personagens.

Mas para ficarmos com uma imagem simbólica deste sentido do coletivo no cinema de Spielberg, nada como evocar a belíssima cena final de Encontros Imediatos do Terceiro Grau (1977): aquela comunhão de deslumbramento à volta da luminosa nave extraterrestre.

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