Chuva batiza Fólio e confirma Óbidos como vila literária

Pagar para assistir aos encontros e debates não tem afastado os leitores da primeira edição do Fólio

Em Óbidos, logo cedo, instalam-se as bancas que vendem o alegadamente típico para aproveitar as hordas de turistas que cedo batem à porta da vila e entram muralhas adentro. Vende-se pífaros que imitam pássaros e copinhos de ginja que às 9 da manhã ainda os visitantes olham de longe. Talvez ao regresso do passeio já haja goela para ela, depois de andar pela ruas empedradas desta cada vez mais vila literária onde também cedo a dezena de livrarias se preparam para mostrar aos interessados num Fernando Pessoa ou num Saramago os livros diferentes e que aos milhares por ali se espalham pelas estantes. Prateleiras nem sempre ortodoxas, pois entra-se numa livraria e os livros estão expostos dentro de caixas de fruta.

É isso que faz de Óbidos uma terra diferente e que, desde quinta-feira e até ao próximo domingo faz gerar outras hordas de visitantes, as que procuram o Fólio, o tal Festival Literário Internacional de Óbidos que se quer a lembrar a FLIP de Paraty e que tem um orçamento nunca visto nestas coisas de encontros culturais em Portugal.

Nas hordas de leitores há alguns que não resistem a fazer-se logo fotografar à entrada da vila entre as duas molduras que enquadram um painel com os principais nomes da nossa literatura. Nem em quererem subir às muralhas, mesmo que a senhora que vende os pífaros avise que está escorregadio e seja fácil cair. Não, na verdade os avisos de pouco servem, porque os leitores estão curiosos em fruir as inúmeras iniciativas do programa que lhes é dado, uma espécie de mapa de Portugal, que em vez de estradas e autoestradas tem os percursos dos eventos em agenda para estes dias.

Se a chuva e o vento forte recriaram no primeiro fim de semana do Fólio um cenário como o do tempo em que destas muralhas altas se combatiam os invasores, afastando alguns da luta contra os livros e os autores ali presentes, a agenda repleta de figuras e temas seduziu outros.

Luarty Beirão lembrado

Como os interessados em ouvir Kalaf e Toty Sa"Med a diabolizar a governação de Angola contemporânea com a leitura de poemas que pareciam refletir a situação atual vivida no país e que eram, afinal, de autoria do antigo combatente pela independência e presidente, Agostinho Neto. Uma revelação de autoria surpreendente, que apanha todos os espetadores desprevenidos, ao mesmo tempo que as surpresas continuam com a evocação de Luarty Beirão, aquele que está em greve de fome há 33 dias devido à repressão das autoridades.

Surpresas que continuam com a subida ao palco da fadista Ana Moura para interpretar um tema angolano, como já tinha acontecido na noite anterior com António Zambujo e Mayra Andrade a cantar Caetano Veloso, e que vão continuar noutras noites, pouco depois de o Elefante da Viagem de Saramago desfilar pela ruas de Óbidos, desconjuntado pela ondulação das pedras rombas das ruas.

Leia mais na edição impressa ou no e-paper do DN

Mais Notícias

Outros conteúdos GMG