"Choca-me a falta de interesse pelo passado de alguma juventude"

Entrevista com Carlos Saboga, realizador de A uma Hora Incerta que recorda um Portugal vigiado pela PIDE

De onde vem o título A uma Hora Incerta e porque o escolheu?

Vem de um poema de Primo Levi que se chama Sobrevivente. É uma citação de um outro poema, de Coleridge, que por sua vez se inspirou num provérbio latino, "mors certa, hora incerta", ou seja, a morte está certa, mas a sua hora não se conhece. Gosto muito da expressão, porque não é só a morte que é incerta, mas a própria vida - a única coisa que não é incerta é que nascemos. E creio que as personagens vivem, de facto, uma hora incerta.

Será o filme uma crónica histórica, sobre o ano de 1942, que se vai transformando numa parábola?

Parábola não sei se será o termo... Para mim, é uma história de amor de uma rapariga que quer ser reconhecida pelo pai. Creio que não será um acaso que os meus filmes tenham sempre um pano de fundo histórico, como se a história tivesse mais ou menos a mesma importância que um cenário. A uma Hora Incerta nasceu, sobretudo, de recordações de infância, por vezes ligadas ao cinema, em particular a um filme de 1943, de Lewis Milestone, sobre a resistência norueguesa aos nazis, com Errol Flynn e Ann Sheridan, entre nós chamado Um Raio de Luz (Edge of Darkness). Foram recordações desse tipo que me levaram a pensar numa história passada durante a guerra. São recordações que me remetem para a infância, quando ia ver um filme, por exemplo, só porque era com o Gary Cooper - ainda hoje, para mim, o mais importante são os atores.

As personagens pertencem mais à história ou a essas memórias da infância?

São as personagens que me guiam na escrita do argumento, são elas que me levam a inventar situações, mais do que a intriga. Escrevi muito para televisão onde, para realizadores e produtores, a intriga era o mais importante.

Veja o trailer do filme:

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