Chega ao fim o quarteto napolitano de Elena Ferrante

O último volume dos quatro livros que contam a história de Lènu e Lila chegou às livrarias. Chama-se a História de Menina Perdida e é o episódio final de um longo folhetim.

"A nossa conversa com Ferrante começou em Nápoles. O plano original era visitar o degradado bairro napolitano dos seus romances, após o que iríamos passear pela marginal, mas à última hora Ferrante mudou de ideias. Os lugares imaginados são próprios dos romances, disse. Após algumas hesitações, Elena Ferrante negou-se e deu a entrevista no salão do Hotel Royal Continental." Quem conta este único face a face com a escritora mais anónima da atualidade foram os seus próprios editores, Sandro e Sandra Ferri, numa recente entrevista na revista The Paris Review, a propósito da tradução para língua inglesa do quarto volume do quarteto dos romances napolitanos, o intitulado História da Menina Perdida - A Amiga Genial - Quarto Volume , que também chegou às livrarias portuguesas esta semana.

Na introdução da entrevista, talvez a única dada de viva voz em contraponto às várias concedidas por escrito, os editores da escritora que usa o pseudónimo Elena Ferrante afirmam que é comum nos últimos tempos a autora ser considerada "a mais importante escritora italiana da sua geração", e reforçam o facto de continuar a optar pelo anonimato: "Desde o primeiro livro publicado em 1992, Um Estranho Amor, ela tem exigido manter a sua privacidade e recusa-se a aparecer em público". Em Portugal, o editor deste sucesso literário é Francisco Vale, da Relógio D"Água, que leu a autora italiana "há uns dois anos e um pouco por acaso. Gostei muito do livro, o que me levou a interessar-me pela obra da autora."

O editor adianta que as vendas de Elena Ferrante é "um dos aspetos menos interessantes da sua edição. Como é sabido, não há qualquer relação entre o talento de um escritor e as vendas das suas obras." No entanto, revela que após o quarteto napolitano os leitores não vão perder o contacto com a obra de Elena Ferrante e terão mais umas centenas de páginas da anónima para ler ainda este ano: "Vamos publicar Fragmentos e A Praia da Noite, e um prefácio de Ferrante numa edição de Sensibilidade e Bom Senso, de Jane Austen.

Quando se pergunta a Francisco Vale se Elena Ferrante não é um fenómeno literário com demasiada unanimidade, o editor responde que "foi considerada uma grande escritora contemporânea pela maior parte da crítica, mas já começaram a surgir opiniões adversas". "Como era inevitável", refere. Não será o caso de James Wood, que escreveu um artigo que potenciou em muito o facto de tornar-se conhecida em todo o mundo e orientar o sentido muito positivo da apreciação da obra da autora italiana.

O romance folhetim bem sucedido

O sucesso de Elena Ferrante é transversal e global. Qual a razão? Ser um exaustivo relato em torno da vida de duas amigas de infância que traz ao leitor reminiscências bastante fortes de uma adolescência perdida? Estar escrito de uma forma correta e muito bem entrelaçado capítulo após capítulo? Explicações existirão, e muitas, para tantos leitores estarem a devorar o quarteto em simultâneo e em tantos países, mesmo que se encontrem "pérolas" neste quarto volume que geram surpresa. Como as que se leem à p. 91: "Se ele te amasse a sério e soubesse que não te pode amar senão assim?" Ou à p. 57: "Ah, como era excitante sentir-se não só amada mas também apreciada." Ou seja, há algo no registo de Elena Ferrante que faz lembrar uma certa literatura folhetinesca, que era sucesso na época em que esta narrativa se passa.

A editora Relógio D'Água disponibiliza os capítulos iniciais de História da Menina Perdida.

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