Cem anos de história da arte portuguesa em revisão

Do advento do modernismo às instalações e performances do século XXI, o Museu Nacional de Arte Contemporânea, mostra, a partir de hoje, cem anos de história dos movimentos artísticos em Portugal

Lourdes Castro tem quatro obras na exposição do Museu Nacional de Arte Contemporânea (MNAC) que abre hoje ao público, Vanguardas e Neovanguardas na Arte Portuguesa - Séculos XX e XXI: o quadro em que usa a tinta negra sobre a tela branca para desenhar a silhueta, duas pinturas sobre acrílico e o lençol Sombra Deitada, em que se bordam o homem e a mulher abraçados, no bordar típico da ilha da Madeira, onde a artista nasceu em 1930 e ainda vive.

Lado a lado com duas esculturas-máquinas de René Bértholo (ex-marido), Lourdes de Castro ocupa o núcleo dedicado às novas vanguardas, dos anos 1960, meio século passado sobre o advento do modernismo, disponível para usar mais do que pincel, tintas e tela na expressão artística.

À medida que se avança no século XX ganham terreno a abstração, a instalação, a fotografia, o vídeo. E, entanto, a obra mais recente em exposição no MNAC é um desenho a carvão de João Queiroz, de 2010, um conjunto que nunca tinha sido mostrado na totalidade. "Há um regresso ao desenho", confirma Rui Afonso Santos, curador deste conjunto de obras que pretendem contar a história de um museu que é "experimental", porque revela novos artistas, e lugar de "revisão" da história, que compara, no seu discurso ao Museu Whitney, em Nova Iorque. Que a última obra seja um desenho e que uma das primeiras seja uma escultura mecânica de António Pedro - Aparelho Metafísico de Meditação (1935) - suporta as suas primeiras palavras na visita dedicada à imprensa: "As coisas nascem umas das outras".

Quando a porta pesada do piso 3 desliza surgem a cabeça que se acredita ter sido pintada por Santa- -Rita Pintor, única peça da sua obra que sobreviveu, e as duas pequenas obras de Amadeo de Souza-Cardoso que pertencem ao museu.

Donos de um dos mais importantes acervos da obra de Joaquim Rodrigo, ela está aqui amplamente representada. É o "favorito" do curador, que o assume desde logo. "Um génio", diz, sobre o trabalho do autor do manual de pinturas certas, uma linguagem pictórica que dizia ser universal. "Ele dizia "estou certo" e eu digo que ele estava certo", completa. Já a palavra génio aplica-a mais umas quantas vezes, para se referir a alguns dos artistas mais jovens: João Onofre e Gabriel Abrantes (cuja Olympia chegará mais tarde).

No início da visita, o curador detém-se sobre os três acrílicos de 1987 de Júlia Ventura, nascida em 1952. Ela, em segundo plano, a preto e branco, e, como cobertura, figuras geométricas em cores primárias, remetendo para o discurso imobilista dos media sobre os "clichés do machismo". Cruza-se com o que se verá na última sala desta exposição, dedicada já aos anos 1990 e ao século XXI: a parede de brocado oitocentista decorada com pratos de louça sobre os quais Ana Pérez-Quiroga, nascida em 1960, estampa a sua imagem, nua, em cima de uma mesa, e escreve "Odeio ser gorda, come-me por favor!".

É um discurso político, e a política anda sempre por aqui. No tratamento que a máquina salazarista dá à obra de António Pedro ou na apropriação que o Secretariado Nacional de Informação (SNI) faz da obra de Mário Eloy, nomeadamente com uma retrospetiva da sua obra em 1958, sete anos após a sua morte.

E a política vê-se também em O Gadanheiro, obra que Júlio Pomar pinta em Évora, em 1945, cujo rosto "está deformado pelo trabalho", afirma Rui Pedro Santos, estabelecendo sempre o paralelo entre o trabalho dos portugueses e os movimentos que se iam sucedendo no mundo ocidental. Pomar bebe do legados dos artistas mexicanos e também de Candido Portinari.

A política está também no discurso do curador, lembrando a escassez de recursos humanos do MNAC. "Somos meia dúzia de gatos pingados", que a diretora Aida Rechena diz ser transversal à administração pública. No museu, as aquisições estão paradas desde 2007. O acervo cresce graças a colecionadores privados e aos seus "gestos de cidadania", como lhe chama Aida Rechena, diretora do MNAC. Nestes contribuintes incluem-se várias galerias de arte. "Gostaria que essa prática se generalizasse, embora o Estado não se possa demitir do seu papel", reforça o curador.

A diretora conta ter esta exposição aberta durante um ano e, em breve, poder mostrar também, em outro espaço, as obras da última metade do século XIX, o que permite que entre o Museu de Arte Antiga e o MNAC se atravessem cinco séculos de produção artística.

Antes disso será aberta a passagem para o edifício onde antes funcionava o Governo Civil de Lisboa e no futuro integrará o museu, depois de concretizado o plano museológico (juntamente com o quarteirão onde funcionavam as garagens, oficinas e refeitório da PSP).

É neste edifício que ainda pode ser vista a exposição de obras da Coleção SEC cujo futuro incerto levou à demissão do anterior diretor do museu, David Santos, atual subdiretor do Património Cultural. "Voltará para Serralves, mas queremos tê-la mais um ou dois meses", diz Aida Rechena. O futuro deste acervo é dossier nas mãos do ministro da Cultura, Luís Filipe Castro Mendes.


Vanguardas e neovanguardas na arte portuguesa - Séculos XX e XXI

Museu Nacional de Arte Contemporânea

A partir de hoje, de terça a domingo

(10.00-18.00), 4,5 euro

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