Celina da Piedade: "O meu primeiro disco foi um capricho total"

A cantora e acordeonista edita mais um disco, "Sol".

Identidade e autenticidade são as duas palavras que melhor definem o percurso de Celina da Piedade, desde que em 2000 se deu a conhecer no grupo folk Uxu Kalhus. Seja a solo, no ensemble de Rodrigo Leão, como presidente da Associação Pé de Xumbo ou como dinamizadora das oficinas de cante na Casa do Alentejo, que organiza há cerca de três anos, esta cantora e instrumentista tem feito da música tradicional um ponto de partida para alargar horizontes e quebrar barreiras. Como mais uma vez acontece em Sol, o mais recente trabalho em nome próprio, no qual avança por territórios mais pop, mas sem nunca perder o norte da sua "geografia emocional", que é o Alentejo. Em paralelo com tudo isto, é ainda Investigadora no Instituto de Etnomusicologia, onde está a criar um arquivo digital do cante alentejano, ao mesmo tempo que faz um mestrado sobre o movimento da dança folk em Portugal.

É uma das grandes embaixadoras musicais do Alentejo, mas não nasceu lá... Como surgiu esta paixão pela região?

Nasci e cresci em Setúbal, mas a minha família é toda do Alentejo.

De onde é a sua família?

A família da minha mãe é de Baleizão, uma aldeia com uma identidade muito forte. E isso sempre me marcou muito, porque nasci em 1978 e quando lá ia em criança ainda apanhei com os resquícios da Revolução.

E a música, como surge na sua vida?

Desde que me lembro [risos]. Sei que pedi aos meus pais para aprender música quando ainda muito pequenina. A minha maior influência foi uma amiga, que tem mais nove anos do que eu e também tocava acordeão. Nem me lembro de alguma vez querer tocar outro instrumento. Os meus pais contam que mal comecei a falar pedi logo para tocar acordeão e, quando fiz 3 anos, os meus pais compraram-me um, portanto lembro-me de ser sempre acordeonista [risos].

O que leva uma criança, e mais tarde uma adolescente, a querer tocar um instrumento conotado com sonoridades mais tradicionais, quando o mais natural, nessa idade, é querer ser uma estrela pop ou um músico rock?

Esse paradigma mudou na viragem dos anos 1980 para os 90, quando bandas como os Sétima Legião, os Madredeus, os Essa Entente ou os Sitiados trouxeram o acordeão para o universo do pop-rock. Isso acabou por ter uma grande influência em mim, porque apesar de gostar muito do instrumento, tinha alguma dificuldade em encontrar repertórios que me entusiasmassem. Tinha 12 anos quando vi pela primeira vez os Madredeus, em Setúbal. Não os conhecia e fiquei louca mal os comecei a ouvir, porque nunca tinha pensado que o acordeão pudesse ser tocado daquela forma, tão contida e emocional. Só pensava que queria fazer o mesmo.

E quando é que o decidiu fazer?

Logo nessa altura. Punha as cassetes e tocava por cima. Fazia-o apenas por gosto, nunca pensei que um dia poderia seguir aquele caminho.

Foi por isso que optou por não estudar música, quando ingressou no ensino superior?

Sim, porque tive receio de que isso me sugasse a paixão pela música. E também porque me comecei a interessar por outras áreas, como história de arte ou etnografia. Fui estudar património cultural para Évora e curiosamente foi isso que me trouxe de volta à música. Logo no segundo ano comecei a trabalhar com músicos locais e com a Associação Pé de Xumbo. Por volta do ano 2000 já tínhamos fundado os Uxu Kalhus, eu e o Paulo Pereira, que era na altura o presidente da Associação Pé de Chumbo. Depois ele saiu e eu assumi a direção.

Foi mais ou menos nessa altura que o Rodrigo Leão a convidou para tocar com ele...

Sim. O Rodrigo tinha acabado de gravar o disco Alma Mater, no qual contou com a participação do Gabriel Gomes, o acordeonista dos Madredeus, mas como ele não queria tocar ao vivo, fui convidada para substituir em palco o músico que mais me influenciou. As voltas que a vida dá...

O que mudou a partir daí?

Tudo... Para começar, tudo muito novo, mas o Rodrigo foi incrível, no modo como me recebeu. O facto de ter começado a tocar com o Rodrigo abriu-me muitas portas. Passei a receber muitos convites e, olhando para trás, percebo hoje que me tinha estado a preparar para isso durante toda a minha vida.

E a carreira a solo, como surge?

Surge como uma necessidade criativa. Quando estava com os Uxu Kalhus compunha muito e como sentia que aquela também era a minha banda, não tinha a necessidade de uma carreira em nome próprio. Quando saí do grupo, em 2008, deixei de ter um espaço para pôr em prática a minha criatividade musical. O meu primeiro disco saiu em 2012 e foi um capricho total, feito em casa, com mais de 40 músicos. Mas funcionou e, a partir daí, a carreira a solo passou a ser o meu foco.

Hoje vê-se mais como cantora ou como acordeonista?

Sempre me vi mais como instrumentista. Só comecei a cantar mais por causa do Rodrigo, que me desafiou para começar a cantar o Passion ao vivo. Mais tarde quando comecei a estreitar a minha relação com a música do Alentejo, passei a cantar muito mais, porque finalmente encontrara uma geografia emocional para a minha voz.

Uma geografia que, neste novo disco, é alargada para territórios mais próximos da pop. Concorda?

Sim. O meu segundo disco foi um trabalho muito específico, só composto por músicas do Alentejo. Depois senti que queria fazer algo diferente, mais pop. Esse lado mais pop tem muito que ver com a minha experiência com os Tais Quais, onde toquei com o Tim ou com o João Gil, com quem aprendi muito na forma como se constrói uma canção pop.

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