Calou-se a voz indignada de André Glucksmann

A história do filósofo e pensador francês, que morreu na madrugada passada aos 78 anos, vai de Mao a Nicolas Sarkozy

Perdeu o pai na II Guerra Mundial e viu a mãe juntar-se à Resistência francesa, foi marxista antes de ser contra o totalitarismo e, ao arrepio de tudo o que se esperava dele, apoiou Nicolas Sarkozy como candidato e Presidente da França até este se aproximar do Kremlin de Vladimir Putin, que sempre criticou ferozmente. Fez parte da geração de intelectuais que contou com Jean-Paul Sartre, Raymond Aron ou Michel Foucault e da seguinte, a que se chamou a dos "novos filósofos". André Glucksmann, filósofo e ensaísta francês, morreu na madrugada de segunda-feira para ontem, em Paris, aos 78 anos.

A notícia foi dada pelo seu filho Raphaël nas redes sociais. "O meu primeiro e melhor amigo já não está aqui. Tive a oportunidade incrível de conhecer, rir, debater, viajar, brincar, fazer tudo e não fazer nada com um homem tão bom quanto genial." O primeiro-ministro francês Manuel Valls escreveu no Twitter que "a sua voz fará falta", uma voz que "guiava as consciências". Também o chefe de Estado François Hollande lamentou a morte do filósofo, referindo-se a um homem que não se "resignava à fatalidade das guerras e dos massacres" e que "estava sempre alerta e à escuta do sofrimento das pessoas".

Quase podemos imaginar um jovem André Glucksmann na Paris do maio de 68 a alternar o seu tempo entre os protestos nas ruas e a sala de aulas em que era assistente de Raymond Aron na Universidade Sorbonne. Quase o podemos imaginar de livro vermelho na mão, era um acérrimo defensor do marxismo e da revolução cultural chinesa de Mao. Tudo muda quando, em 1974, o Arquipélago de Gulag, de Alexander Soljenitsyne, lhe chega às mãos e nele provoca uma transformação profunda.

Glucksmann rompe com o marxismo e sobre ele, a União Soviética e os gulags, reflete em La Cuisinière et le Mangeur d"hommes (1975, A Cozinheira e o Devorador de Homens, publicado em português pelas Edições Afrontamento), que então vende dezenas de milhares de exemplares. Com Bérnard Henry-Lévy, Christian Jambet ou Guy Lardreau, Glucksmann compunha o grupo a que se chamou "novos filósofos" (nouveaux philosophes). Eles que nos anos 1970 rompem com os ideais comunistas, debatem na televisão e chegam ao grande público.

Publica Maitres Penseurs (1977, Mestres Pensadores, editado pela Dom Quixote) em que reflete em torno da instrumentalização de filósofos como Nietzsche ou Marx por regimes totalitários.

Com Jean-Paul Sartre e Raymond Aron - que interromperam uma quezília de anos para esta ocasião - protagonizou o momento em que três filósofos entraram no Eliseu para pedir ao presidente da República, então Valéry Giscard d"Estaing, que interviesse pelos refugiados vietnamitas, os chamados boat people, que haviam fugido do regime comunista. Estávamos em 1979 e foram 120 mil os que acabaram por entrar em França, vindos também do Camboja e do Laos.

Rússia, Síria e Estado Islâmico

Glucksmann chocou a França quando, em 2007, apoiou publicamente a candidatura de Nicolas Sarzoky à Presidência. Mais tarde, dir-se-ia "satisfeito por desiludir as pessoas que me colaram uma etiqueta que eu nunca escolhi". O apoio que deu à política direitista de Sarzoky terá por ventura chocado mais o público do que quando, em 1999, defendeu a intervenção contra a Sérvia na altura da guerra do Kosovo. Apoiaria também uma solução militar no Iraque de Saddam Hussein em 2003, assim como o fez - ao lado de Henry-Lévy, Daniel Cohn-Bendit ou Claude Lanzmann - na Líbia de Muammar Kadhafi em 2011.

Feroz crítico do presidente Vladimir Putin, desde os tempos do russo como primeiro-ministro, juntou a sua à voz dos independentistas chechenos. O Kremlin voltou a estar na mira de Glucksmann em 2008, quando do conflito entre os separatistas pró-russos da Ossétia do Sul e da Abecásia e o Estado da Geórgia. O mesmo aconteceria na anexação da Crimeia à Rússia em 2014 e com o conflito que se seguiu entre os separatistas pró-russos do Leste da Ucrânia e Kiev.

Um ano após os atentados do 11 de Setembro, o filósofo refletiu acerca do que aí viria em Dostoievski à Manhattan (2002, sem tradução portuguesa). Referia-se aos islamitas e ao que chamava um novo niilismo que estes representavam na ameaça ao Ocidente.

Numa entrevista ao jornal francês Le Monde em 2014 - pouco tempo após o seu livro Voltaire contre-attaque (sem edição portuguesa) ser editado - Glucksmann atribuía à inércia do Ocidente a emergência do autoproclamado Estado Islâmico. "A tirania é mãe do terrorismo. Tomemos a Síria como exemplo, a inércia das democracias face à crueldade de Bashar al-Assad, e à do seu padrinho Vladimir Putin, permitiu o "Estado Islâmico"", lia-se.

Vaticinando um século XXI pouco feliz, o filósofo lembrava, na mesma entrevista, Auschwitz ou Hiroxima para afirmar que "nada do que é inumano nos é estranho".

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