"Cada vez que atuas diante do público tens de dar tudo"

Hoje ao fim da tarde, estará fixado a um ecrã de televisão, a torcer pelo Real Madrid. O que ele quer saber é o que pensa o público português sobre Cristiano Ronaldo

Das janelas do hotel onde está instalado, nas Amoreiras, tem uma vista deslumbrante que não para de elogiar. Cantou em Viena na sexta, tem o Meo Arena amanhã, no dia 31 estará em Berlim para La Traviata. Aos 76 anos, mantem-se em atividade constante, como cantor e como maestro, sem deixar de participar na Operalia e na Europa Nostra. Apesar do cansaço visível, é de uma enorme simpatia, e está tão descontraído que de repente desata a trautear Abril en Portugal. Em espanhol, como cantou com Amália.

Como trabalha tanto, não se cansa?

Hombre, de vez em quando fico cansado. Hoje estou muito cansado porque ontem [anteontem] à noite tive um concerto muito grande em Viena. Mas tenho uma paixão muito grande pelo que faço e essa paixão faz-me sentir bem em seguida. Recupero e a seguir estou pronto para o próximo concerto.

Trabalha desde os 16 anos e sempre com muita intensidade. Quando o vemos em palco, é sempre muito intenso. Como consegue isso?

Não conheço outra maneira de fazer as coisas. Creio que o público merece tudo, foi o público que te descobriu, foi ele que te levantou, veio aos teus concertos, comprou discos. Então cada vez que atuas em frente do público, tens que estar a dar tudo, não podes guardar nada. Cada dia é importantíssimo e cada espetáculo tem de ser o melhor.

Na sexta-feira comemorou os 50 anos da sua estreia em Viena. O público é diferente do que era há 50 anos?

Continua a ser o público da música clássica, tradicionalista. Dás-lhe tudo o que tens dentro desse repertório. O público dos concertos é mais amplo. Em Viena estava numa sala com 2500 pessoas, era um público de aficionados da ópera. E o público que vem ao concerto de Lisboa é diferente. Entre os que vêm ver o espetáculo pode haver pessoas que estão à espera de que cante também uma canção, não necessariamente tudo ópera. Na sexta-feira foi um concerto de ópera.

Vai cantar árias e que mais?

Árias, canções, operetas, zarzuela, um pouco de tudo.

Fado também?

Possivelmente, se encontrarmos um adequado, sim. A Kátia é uma artista estupenda. Talvez esteja a dizer uma barbaridade, mas creio que ela segue os passos de Amália Rodrigues, pela sua sensibilidade, pela sua interpretação. Tive a grande felicidade de cantar com a Amália também.

Cantou um fado com ela?

Sim, cantámos um par de coisas. Creio que cantei o fado Coimbra, mas em espanhol. Chama-se Abril en Portugal. Já ouviu? [trauteia alguns versos de Abril en Portugal].

O que tinha a voz de Amália?

Era um rouxinol, era uma mulher com um temperamento... Foi a rainha do fado.

Tem algum cuidado com a sua voz?

Gosto de cuidar dela, mimá-la. Mas na noite passada não consegui dormir porque a emoção era enorme. Estava um vento tremendo em Viena, no meu quarto ouvia um barulho como se fosse um furacão. Não era mas era isso que sentia. E não dormi. Quando cheguei a Lisboa dormi uma hora e foi pior, sinto-me com a voz em baixo. Mas na segunda-feira vai estar bem. Espero que sim.

Conhece todo o repertório de cor?

Tens de saber de cor todas as óperas. Cantei 148 óperas mas neste momento faço seis ou sete por ano. Hoje em dia canto La Traviata, MacBeth, Nabucco, Simon Boccanegra, I due Foscari (de Verdi), e Thaïs (Massenet).

Deixou Wagner?

Mudei de tenor para barítono. Mas talvez vá fazer o Wolfram da ópera Tannäuser e e também o Amfortas, de Parsifal [papeis de barítono]. Talvez em Berlim ou Hamburgo.

A mudança de tenor para barítono é consequência da idade?

O repertório de tenor é tremendamente difícil, muito agudo, e percebi que podia continuar a cantar mas se continuasse com o repertório de tenor tinha de retirar-me. Felizmente, encontrei a possibilidade de cantar como barítono. Quando canto ópera, canto barítono, mas nos concertos canto coisas bastante mais agudas.

O que faz quando não tem trabalho para fazer? Já sei que vê futebol.

Sim, neste domingo Cristiano Ronaldo pode fazer-nos campeões da Liga. Está muito quente agora, fez 16 golos em poucos jogos. Vou ver de certeza. É um jogo muito duro, porque o Málaga está muito bom, e isso vai definir se o Real Madrid ou o Barcelona são campeões.

Antes do Ronaldo era o Figo?

Sim, mas antes deles conheci Eusébio. Estive no campo do Benfica com ele. O Eusébio gostava de música. Na primeira vez que vim cantar ele foi ver-me. Haverá outros jogadores, mas para mim o futebol começa com o Eusébio, continua com Figo e agora com Ronaldo. Agora faço eu uma pergunta: o que sentem os portugueses com o Ronaldo? Tem de ser fantástico, o público português tem de ter orgulho.

Claro que sim, é um herói.

É um grande jogador. Lembro-me de quando ele começou, sobretudo no Campeonato Europeu em 2004, em Portugal.

O que faz então para se descontrair?

Gosto de muitos desportos, além do futebol, gosto de Fórmula 1, basquetebol, ténis, golfe, basebol.

E continua a gostar de tourada?

Agora menos. Gostava mas hoje em dia impressiona-me muito. Talvez prefira o estilo português em que não se mata o touro. Quando eu era muito jovem havia um toureiro português chamado Manuel dos Santos [1925-1973]. Era fantástico. Nós somos uma família muito grande, muito unida e então tentamos estar juntos nas férias.

O que é para si a ópera?

A ópera foi a minha vida. Estes génios que criaram estas obras maravilhosas são incríveis. São verdadeiros génios.

Fez de tudo, na música. Hoje é maestro também. Por que se impôs a ópera?

Porque tem um valor extraordinário. Desgraçadamente, nem toda a gente pode ir à ópera, em primeiro lugar porque é um espetáculo muito caro. E a educação musical não permite que as crianças aprendam cedo não apenas a ópera mas a música clássica. A música pop está espalhada de uma forma mundial. Nós somos uns pigmeus, uns anõezinhos, os da música clássica.

Mas é uma superstar.

Talvez para os que gostam de música clássica e de ópera. Mas muita gente não tem a mais pequena ideia do que é a opera e de quem é Plácido Domingo.

Continua a presidir a Europa Nostra [organização para a defesa do património cultural europeu]...

Sim, continuo a ser presidente. E o mais importante, além da minha carreira, é o concurso Operalia [Concurso Mundial de ópera destinado a jovens cantores]. Este ano vai ser no Cazaquistão. Espero que um dia possa ser em Portugal. Por que não?

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