"Cada romance é uma pastilha elástica na sola do sapato"

O escritor irlandês John Banville está hoje na Feira do Livro de Lisboa para apresentar o seu novo romance. Em entrevista explica 'A Guitarra Azul'.

Raramente um entrevistado fica preocupado com o gravador que lhe vai registar as palavras, mas John Banville teve uma má experiência na conversa com Salman Rusdhie, quando lhe fez a única entrevista da sua vida, e ao tentar transcrevê-la não percebia nada. Por isso, fala loud and clear para não haver azar.

Esmaga as personagens no livro. Porque as magoa enquanto autor?

Eles não são pessoas, mas feitos de palavras. Também têm muito de mim, porque sou o único que me conhece bem. São versões minhas, o que não quer dizer que o livro seja autobiográfico. Não é mesmo.

Há partes que parecem ser.

Todos os escritores negam o autobiográfico, no entanto os livros não passam de biografias alternativas.

Questiona-se enquanto escreve?

Para dizer a verdade, não sei o que faço enquanto escrevo pois estou num nível de concentração muito alto. Quando era jovem achava que tinha controlo de tudo, mas certifiquei-me que a idade não traz sabedoria, apenas confusão. Deixo a imaginação funcionar e é uma frase de cada vez. Até ao momento em que acabam e tenho o livro pronto.

Então, não planeia os romances?

Tenho uma ideia geral do que vai acontecer, porque cada tivro tem o seu momentum, cria um ritmo e regras próprias. Podemos estar a trabalhá-lo seis dias, seis meses ou seis anos, e há um dia em se dá o clique e encontramos o registo próprio. Como isso acontece, desconheço.

Este é mais um livro ou é especial?

É apenas mais um. Foi no livro Os Infinitos aquele em que cheguei mais perto do que queria fazer, mesmo que não o tenha conseguido porque todos eles falham no atingir da perfeição. Isso não existe! A perfeição... só se fossemos Deus.

Ao fim de um dia de trabalho nunca fica satisfeito?

Tive uma experiência estranha, não me lembro qual era o livro, porque precisava de uma citação de um romance meu. Escolhi a frase que achei boa e, mais tarde, percebi que não era tão boa como pensava. Há um cartoonista americano, Gary Larson, que explica bem esta diferença em apenas duas imagens: uma, de um canteiro de flores muito bonitas; outra, as mesmas flores mas não tão belas. A legenda diz: como as flores se veem a si próprias. Sou eu e os meus livros. Por mais beleza que lhes veja, há erros e falhas em todos.

Não tem boa opinião de si?

Não. Sempre disse que os meus livros são os melhores de todos, mas nunca suficientemente bons para mim. Estou a ser irónico, ou quase irónico, claro!

A Guitarra Azul , dizem, tem uma orientação e um protagonista banvilleanos. Revê-se nisto?

Claro, fui eu que o escrevi. No entanto, tenho mais a ideia de que escrevemos sempre o mesmo livro e estamos constantemente a tentar aperfeiçoá-lo. Quando se começa um livro, achamos que este vai ser o tal, a obra-prima do século e que será lido para sempre. E só depois é que compreendemos que não passa de mais um maldito romance que teremos de terminar. Cada novo romance é como limpar uma pastilha elástica da sola de um sapato. Acabado o livro, avança-se para outro. Isto faz-me lembrar uma história de Henry James: quando estava a morrer, mesmo em coma, a mão mexia-se como se estivesse a escrever. É o que me vai acontecer.

Sente-se uma grande ansiedade no livro. Não a consegue evitar?

Não, porque todos vivemos em ansiedade e no artista ela ainda está mais presente. Como Beckett dizia, o artista falha como ninguém, passamos os dias a lutar e isso desgasta.

No livro, refere que pintar é como roubar. Escrever também é roubo?

Com certeza, pois apropriamo-nos do mundo. Estamos sempre a ver como os outros são. É como se imitássemos Frankenstein a construir o monstro - um bocado daqui, outro bocado dali. Eu não vejo as minhas personagens fisicamente mesmo que os leitores sejam capazes.

Afirma que é impossível as pessoas estarem felizes com a vida que têm. Negativismo a mais?

É como quem visita a Irlanda. Gosta-se do país, mas e os bombistas que matam 28 pessoas num atentado no sábado à tarde? É como o ser-se feliz, sempre por breves momentos e nunca por 24 horas do dia. É como voltar à vida normal depois de ver um bom pôr do sol, ler um belo poema ou estarmos apaixonados. Não se pode dizer que a vida não é gloriosa, mas se me perguntarem em que estação gostaria de morrer só poderia responder: em nenhuma. Quero sempre viver, porque sendo o mundo terrível, é um lugar muito bom. É isso que a arte tenta afirmar, pois a sua única função é intensificar o prazer de se estar vivo.

Este não é um livro mais outonal?

Decerto, até porque o escrevi com esta idade. Estou a viver o outono.

Vê-se que prefere utilizar como cenário a Irlanda na maioria dos seus livros. Porquê?

Não abuso desse cenário, talvez repita mais o confronto do irlandês face à língua inglesa. Os escritores ingleses tentam simplificar o mais possível, porque seguem a contenção de George Orwell, que defendia uma prosa transparente como o vidro. Os irlandeses, olham por uma lente que distorce, mas estão sempre a poli-la.

Joyce, Yeats iriam rever-se nesta sua visão?

Com certeza, tal como Beckett. Tivemos 800 anos de ocupação inglesa e a nossa única vingança sobre essa colonização é ao nível da língua. Seria um desastre perdermos a nossa própria a língua irlandesa.

O valor da arte está muito presente. É o mais importante para si?

Creio que sim, é o substituto da religião. Aliás, prefiro a arte à religião. Não estou preocupado com a posteridade, porque os meus livros morrerão comigo.

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