Bruno Nogueira e Araújo Pereira, comissários no São Luiz

Segunda-feira começa o ciclo sobre a comédia no Teatro São Luiz que tem como comissários dois humoristas: Bruno Nogueira e Ricardo Araújo Pereira.

A acreditar nas confissões dos senhores comissários Bruno Nogueira e Ricardo Araújo Pereira sobre o ciclo de debates que vão organizar no São Luiz a propósito da arte da comédia e de outros assuntos menos importantes como a religião e a política, o que irá subir ao palco deste teatro será mais uma tragédia do que qualquer outra coisa. Aliás, o ciclo chama-se Tragédia + Tempo, o que augura qualquer desfecho possível pois a pouco tempo de se iniciar, nesta segunda-feira, ambos declaram desconhecer o que será mesmo "aquilo" em que estão envolvidos ao subirem ao palco.

Quando se pergunta a Bruno Nogueira (BN) como é apresentar-se ao público perante tanta alegada indefinição, a resposta surpreende: "É péssimo. Está tudo errado porque vamos confiando nas pessoas que convidámos para a primeira sessão, Nuno Markl e Ana Bola, e só espero que tenham capacidade para tornar a sessão interessante. Nós, estamos ali para compor o ramalhete." Acrescenta: "Pessoalmente, sou muito metódico, gosto de preparar as coisas com antecedência e fazer um esquema mental; quando isso não acontece, sinto-me assustado. Como isto tem a ver com a comédia, estou mais confortável e até há um lado bom em não controlar tudo."

Ricardo Araújo Pereira (RAP) não lhe fica atrás e diz: "Ainda estamos a fechar o programa, por isso só na segunda-feira, quando há uma conferência de imprensa que mete jornalistas, é que deve ficar tudo mais claro." Também faz um acrescento: "Segunda-feira é o pontapé de saída daquilo que será um conjunto de atividades de/e sobre comédia que vamos fazer ao longo de seis meses no São Luiz. O que posso dizer por agora é que vai incluir conversas, teatro, cinema, stand-up e recitais."

Talvez a preparação do ciclo Tragédia + Tempo não seja um caos tão grande como os senhores comissários anunciam, afinal a diretora artística do teatro, Aida Tavares, está serena e esclarece o que vai acontecer nas sessões que decorrerão até 8 de julho como se estivesse tudo muito bem organizado. É o que refere quando se questiona se foi fácil fechar a programação? Antes de responder, ri-se um bom bocado, mas depois volta ao tom sério e esclarece: "Estou habituada a gerir trabalho com artistas, que têm tempos bastantes diferentes, e com quem nunca é fácil criar um projeto de raiz que dura sete meses. Mas, fixámos o calendário e montámos o projeto sem grandes problemas." O ciclo não é apenas diversão, pergunta-se? "Pelo contrário, o objetivo é pensar além do tempo da diversão. O que interessa é trazer reflexão sobre o tema e não há muita gente com capacidade para dizer sobre a comédia o que eles sabem", conclui.

"Ninguém sabe tudo"

Apesar de serem ambos altos e magros, nem Bruno Nogueira nem Ricardo Araújo Pereira pretendem comportar-se como modelos da Victoria"s Secret neste desfile de sessões sobre o humor. RAP responde logo: "Para nos qualificarmos como manequim da Victoria"s Secret é precisava ter outra coisa que não foi referida. Portanto, estamos a salvo dessa comparação." BN elabora um pouco mais: "É pá, gostava de ser uma delas para me poder apalpar o dia todo, se calhar nem ia trabalhar. Infelizmente, não é isso que se passa, coincidimos na altura mas a nível de corpo deixo muito a desejar."

Apesar de tudo, Araújo Pereira vê um lado positivo no ciclo Tragédia + Tempo, é que vai servir para aprender alguma coisa: "A comédia tem essa parte boa de nunca ninguém saber tudo sobre o assunto." Especifica que tem muita curiosidade na conferência sobre o Humor na Revista à Portuguesa porque "poderei aprender nessa conversa, onde haverá muita gente que fez e ainda faz parte da Revista, que foi ganhando experiência com a prática. Mais do que saber a pequena história da Revista, ou qual era a grande vedeta que no fim ia para casa com as coristas, interessa-me saber como é que surge a ideia de fazer uma pausa maior em determinada parte ou demorar um pouco mais a falar, produzindo efeitos na plateia em muito diferentes do que aconteceria com outra maneira de representar."

E o título do ciclo? RAP retira do seu conhecimento investigatório a explicação: "É uma frase antiga, uma paráfrase..." Para BN, "a frase é bastante conhecida e encaixava-se bem." Quanto ao modo como chegaram à estrutura deste ciclo, BN garante que foi fácil: "Perdemos muito tempo a falar de coisas que não têm a ver com aquilo que queríamos a fazer e só lá para os últimos dez minutos de conversa é que tratámos de trabalho - para parecer que estávamos a fazer alguma coisa."

Com este método não falharam alguns temas importantes, como o do futebol? RAP responde: "Pois não há, se calhar até segunda-feira ainda aparecerá." É mais fácil falar do humor na política? "Depende, é sempre difícil falar sobre humor em qualquer assunto em que as pessoas estejam envolvidas. É mais fácil falar sobre religião com um militante político e vice versa", explica.

No que respeita a temas esquecidos no alinhamento do ciclo, Bruno Nogueira garante que ainda está muita coisa em aberto: "A comédia marca presença em muito mais coisas do que aquelas que admitimos que esteja. Por isso tivemos que restringir a variedade a uma lista que pareceu essencial e com mais interesse para o público. É claro que o humor na neurocirurgia não convidaria ninguém a assistir! Tentámos ter as áreas mais interessantes, certos de que no decorrer deste ciclo podem surgir outros temas." Quanto a expandir o conceito para o levar a outros localidades do país, Nogueira só diz: "Nada foi falado ainda. Vamos primeiro ver como corre aqui, depois, se houver hipótese, não vejo porque não."

Stand-up obrigado

Entre as várias apresentações do humor está a do stand-up, na qual BN tem presença marcada, mesmo que não esteja muito para aí virado: "Estou no programa mas quero fugir disso. Logo se verá o que farei." Quanto a RAP, o stand-up não estará no seu futuro: "Não me meto nisso, tenho medo de plateias." Será que BN o vai pressionar para o fazer? "Não há nada pior que desafiar uma pessoa para algo que não se sente à vontade para fazer!"

O que também não pretendem é intelectualizar as sessões, como refere Bruno Nogueira: "Antigamente, o humor era visto como desprezível e um homem de bom senso não lhe ligava. Depois, mostrou-se que não era bem assim e que o riso está presente em coisas interessantes - não é só patetice. No entanto, não pretendemos intelectualizar, até porque não temos capacidade para o fazer, preferimos que se pense e fale sobre comédia. A conversa poderá fugir para o lado cómico, mas deve conseguir chegar a lugares menos evidentemente cómicos, até porque não sabemos o que é que as pessoas vão à espera, nem o que iremos fazer." Sobre o que se espera, Ricardo Araújo Pereira apenas diz: "Na primeira sessão, vão perceber que o objetivo é colocar quatro pessoas, que tanto escrevem como interpretam, a conversar sobre o seu ofício durante algum tempo."

Para o fim uma pergunta provocativa para ambos. Primeiro a Bruno Nogueira: RAP está ao seu nível? "(risos) Essa é uma conversa que já tive com o Ricardo muitas vezes e acho que só na comédia - e talvez no futebol - é que há essa coisa de se estar sempre a fazer comparações. Isso não existe entre atores de cinema e teatro mas, talvez por uma atração pelo abismo, é frequente entre humoristas. Quando nós [BN e RAP] estamos juntos não sentimos essa pressão em fazer comparações. Gostamos de estar um com o outro e pensar em coisas que não interessam a ninguém. O humor tem essa coisa chata de excluir quem está à volta ao perdermos uma hora a falar sobre um assunto que não interessa rigorosamente a mais ninguém."

E o que pensa Ricardo Araújo Pereira sobre se BN está ao seu nível: "Acho que sim. Quando estamos juntos não nos ocorre dizer "desculpa lá, em que patamar estaremos ambos? Ou, deixamos entrar alguém aqui para o nosso Olimpo ou, pelo contrário, estamos num patamar tão baixo que... Basicamente, somos dois tipos que acham graça a fazer rir as pessoas e que aceitaram este convite para organizar umas atividades sobre este assunto. É tão simples como isso." Decerto que vai correr tudo bem, pois RAP considera que uma relação "antiga, mesmo que não espetacularmente próxima, facilita fazer tudo aquilo que quisermos".

Quanto à valorização profissional ao serem chamados comissários, ambos respondem afirmativamente. Para Bruno Nogueira, "é a única altura em que posso ser tratado com algum respeito. É tudo uma bandalheira à mesma mas podemos programar o que mais gostaríamos de ver". Para Ricardo Araújo Pereira, "confere um certo prestígio e acho que a partir de agora sempre que for a um lugar público haverá outra deferência".

Fora de brincadeiras, Aida Tavares justifica a escolha destes dois humoristas para protagonizarem uma temporada no São Luiz por uma única razão: "Têm uma boa ligação em termos de imaginário e são duas pessoas bastante diferentes na carreira e no plano intelectual, que fazem um percurso muito interessante do ponto de vista da relação com a a comédia e do pensamento sobre ela. Não há muita gente que possa pensar tanto sobre este assunto, no sentido de refletir e trazer pensamento adicional e mais valias sobre o que é a comédia nos dias de hoje em Portugal".

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