Branko em busca da banda sonora das cidades

Branko visitou oito cidades, tão distantes entre si como Bombaim e Lima, colecionando música tradicional e cruzando-a com a eletrónica. O resultado é "Club Atlas", que se estreia na segunda-feira na RTP2. "O que se pode criar mais?", pergunta-se.

"Há muita informação online para geeks como eu, de cultura, de música, de nichos, de microcenas, mas, a meu ver, não há nada que tenha uma linguagem abrangente que consiga abrir este universo da junção da música tradicional com a música eletrónica, para uma pessoa que não tenha de saber nada de bpm, remixes, deejaying, e é assim que nasce Club Atlas." As palavras são de João Barbosa, conhecido como Branko, produtor, fundador de Buraka Som Sistema e da Enchufada, e, agora, autor deste programa de televisão - Club Atlas - que se estreia na segunda-feira na RTP2, e que, em oito episódios, viaja pela música de sete cidades. "É mesmo um programa de viagens, no formato clássico do programa de viagens."

Um Anthony Bourdain sem falar de comida? "Substituímos a comida por música. Vamos a Lima, mas, em vez de falar de ceviche, falamos da cumbia eletrónica. Às vezes acabamos a agarrar no carro para fazer uma viagem para conhecer alguém, acabamos a comer" [risos]. É rigorosa a descrição: "Fomos a uma vila a duas horas de Lima, chamada El Carmen, conhecer os Ballumbrosio, uma família clássica dentro do movimento afro-peruano, da junção do universo andino com os escravos que foram levados para o Peru. [...] Acabámos, no dia a seguir, em Lima, a gravar", conta sobre esse encontro musical que já faz parte das atuações de Branko e que deverá sair em breve.

A série documental Club Atlas cobre viagens de Branko e do realizador João Pedro Moreira no início de 2017, e, apesar do título, nada tem que ver com Atlas (2015), o primeiro disco a solo do músico, em que as viagens foram o fio condutor. Tão-pouco tem que ver com a webseries para o YouTube que daí resultou. "A particularidade principal do disco é que tinha estado a gravar em cinco cidades e todos os dias colaborava com um artista diferente." "Isso foi um bocadinho do atiçar do gosto para pensar a coisa de maneira mais abrangente", diz. O tal programa para geeks como ele, que se estreia na segunda-feira, às 00.22, e que foi apresentado no concurso de ideias da RTP, com "um ganda powerpoint!"

"É um ponto de vista bastante pessoal, não é jornalístico, não estou a tentar contar tudo de maneira correta, é quase um vlog de viagens em que vou comunicando com músicos, às vezes acabamos em estúdio, mas porque aconteceu, não é uma necessidade", afirma. É um programa sem bastidores, nem a figura clássica do produtor. Em cada cidade encontraram as pessoas que os pudessem levar aonde queriam, e em Lisboa contavam com João Silva, aka Rastronaut, outro DJ e produtor da Enchufada.

João Barbosa e João Pedro Moreira trabalharam em vídeos de Buraka Som Sistema e este último é o autor do documentário sobre a banda, Off the Beaten Track (2013). "Conhecemos bem a linguagem [um do outro] e isto tinha de ser feito com alguém com quem fosse possível partilhar o quarto, não dava para criar esse tipo de problemas que podiam fazer que a ida a uma cidade não fosse possível."

Além da cidade de Lima, Branko e João Pedro Moreira gravaram em Lisboa, ponto de partida desta história, Bombaim, Acra, Montreal, São Paulo, cidade da Praia e Mindelo. "A ideia é apresentar oito cenas musicais através dos seus artistas." Com uma linguagem que vai beber a tudo o que tem sido o trabalho da produtora Enchufada. "Aquele momento em que uma pessoa agarra num ritmo, de hoje em dia, urbano, e o funde com alguma coisa tradicional, transpondo a realidade de uma cidade para a música de hoje em dia. Em algumas cidades, acabou por virar a banda sonora dessas cidades e desses clubes", sistematiza. É um mundo rápido, quase imediato - "eu acabo uma música à tarde e toco-a num clube à noite, levo numa USB [pen] e é o espaço mais curto entre a matéria-prima e a reação. É esse o nosso universo".

As cidades escolhidas refletem essa "ebulição". "Onde as raízes têm presença naquilo que é a música que os jovens ouvem hoje em dia numa discoteca. Quase todos os episódios começam com uma conversa com jornalistas, não indo diretamente aos músicos, em que tens uma ideia de ritmos, patterns [padrões], migrações culturais e sociais, e, a partir daí, vais abrindo uma série de portas, até chegares ao que resulta na versão contemporânea que está a ser consumida em discotecas ou no Spotify", refere.

Para encontrar esta música, "Acra é uma cidade tão ou mais válida, com tanto ou mais peso, que Lisboa". O papel de Branko é o de um curador "que procura que essa música não seja consumida apenas nestas cidades, mas também em outras, com as suas microcenas e que, no meio disso tudo, ainda surjam cruzamentos". "A minha ideia aqui é sempre: o que é que se pode criar mais? O que é inovação, o que se pode incluir numa só canção? "

"Nós estamos a falar de música eletrónica que pretende ter relevância cultural, ir a um clube à noite não só pelo puro prazer, mas porque sei que este DJ vai trazer-me música daqui, daqui e daí. Quero ver a viagem dele, as novidades, quero ver o que ele tem para mim", explica.

Branko regista movimentos socioculturais e está confortável nessa descrição. "O ponto mais interessante no meio disto tudo é que não há nada mais genuíno do que um miúdo, produtor, que pode ter entre 16 e 30 anos, sentado ao computador a fazer música. O universo da música, a indústria, pode ainda não lhe ter chegado, pode ter simplesmente instalado um programa no computador, mas há, a meu ver, uma coisa muito bonita que existe na música eletrónica que é o do it yourself. Qualquer pessoa pode instalar uma versão 'crackada' de um programa num PC, algures, e criar música."

Uma dessas pessoas é DJ Grizzly, criador de uma série de hits e do que Branko classifica de "uma certa mentalidade da música da Costa Oeste de África". "Ele contou que começou porque arranjou uma versão do programa Fruity Loops, que eu também usei e que é o programa em que toda a gente começa, e instalou no computador da escola. Só fazia música nos intervalos. Voltava para as aulas, saía e fazia música, voltava para as aulas, ou seja, nem tinha computador em casa, instalou secretamente no computador da escola e ficava ali. E essa música está mais do que pronta para ser consumida, não é preciso gastar cem mil euros num estúdio a seguir para pôr a música a soar de uma maneira espetacular. É isso que é realmente interessante trazer para cima da mesa: olhar para os fenómenos socioculturais, o que as pessoas estão a ouvir num clube mais do que no Centro Cultural de Belém ou através da rádio, onde há um interesse de criar aquela dopamina de pôr as pessoas a ouvir qualquer coisa a toda a hora. É isso que procuro, esse é o kick."

Esse do it yourself é também parte da história de João Barbosa, 37 anos, a partir da Amadora, onde cresceu e conheceu Rui Pité, com quem fundou Buraka. "Tivemos os dois o mesmo CD de software pirateado. Ele instalou no computador dele e eu instalei no meu. Era uma daquelas coisas que circulavam pela escola. Havia essa troca de ficheiros. Hoje tens tu o CD de software pirateado. Cada um faz o que tem a fazer com aquilo. Se calhar, alguns amigos meus instalaram o Photoshop e hoje são fotógrafos."

"Fomos abrindo as portas. Estávamos a produzir nos últimos anos do liceu", recua. "Só lá para 98, 99 é que tive a sensação de que pegava num programa de música e conseguia fazer alguma coisa de jeito." Vieram os encontros com Kalaf e outros artistas, saindo da Amadora e indo para Lisboa. Das noites de fim de semana no Ciclone, ao (breve) One Week Project (2004), até ao nascimento de Buraka Som Sistema, em 2006.

"Lisboa tem um som característico". "Tem o melting pot necessário, das características sociais da cidade e arredores e a relação com Cabo Verde e Angola, principalmente, para virar movimento musical que tem uma proporção de elementos que só existe aqui", situa. "É a exposição de ritmos como kuduro, afrohouse a uma visão europeia, uma visão de pessoas que cresceram a ouvir coisas de Londres e de Paris." Como se pode chamar? "Eu chamo música de Lisboa, som de Lisboa, batida de Lisboa, isto não se resume só a um nome, é um estilo de vida que é acreditar que existe na lusofonia uma série de equações e possibilidades de música que têm muito para dar e que podem ser transportadas para o mundo todo."

"Acho que as pessoas reconhecem esse som de Lisboa. Que nós fizemos com Buraka Som Sistema e que artistas como Batida, DJ Marfox têm contribuído para inovar. E abriu espaço para artistas mais comerciais como DJ Telio, que chegam às discotecas todas. Esse som é reconhecido, está nos vídeos mais populares do YouTube. É real. E os estrangeiros reconhecem que Lisboa tem esse som característico. Não vou justificar o boom de visitantes com isso, obviamente estou a falar de um nicho, mas há uma faixa etária que vem à procura disso e, se pensar na quantidade de mensagens que recebo de pessoas que querem sincronizar uma vinda a Lisboa com um evento da Enchufada, isso leva-me a crer que existe essa perspetiva", afirma.

Reconhecido também por Madonna, para quem tocou numa mostra de cultura urbana, Lisboa Crioula, organizado pelo músico Dino d"Santiago, no final do ano passado. Se a artista pop usar estes sons num próximo trabalho, isso vem confirmar o vosso trabalho? "Será que é preciso a Madonna vir fazer alguma coisa com alguém de Lisboa para eu ficar mais convencido de que há um som em Lisboa? Se ela fizer, ótimo, se ela não fizer, não faz. Continuo a dançar com toda a gente. Se fizer, dá um salto, seria buzz..., [mas] não estou à espera de que um produtor de LA descubra este som para ele explodir. Não é necessário", explica.

"Um artista como o Drake trabalhar com um artista de grime londrino, isso já é mais do que confirmar o que está a acontecer", responde João Barbosa. "Se o baile funk chega à tabela dos 50 mais ouvidos do Spotify, não será que somos nós que lhe damos a confirmação? Responde também com o episódio gravado em Bombaim. "Eu falo com um DJ, chama-se Nucleya, que é o primeiro artista independente na Índia que conseguiu pôr 15 mil pessoas num estádio. Tudo o que vem do caldeirão da Índia vem muito formatado por Bollywood e toda essa indústria, mas hoje em dia, mesmo dentro dos próprios mercados internos, também há fronteiras que foram ao ar."

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