Binoche dança e encanta em Polina

Na mesma semana de Valerian e a Cidade dos Mil Planetas, chega também aos cinemas outra adaptação de uma banda desenhada, Polina, a história de uma menina do ballet...

"Este filme foi construído inicialmente sobre a matéria primária que é a dança. Depois, é trabalhado de forma narrativa, como se fosse um filme de aventuras, embora a sua substância seja a dança. O corpo dos bailarinos é a matéria de expressão de Polina. Tudo isto faz que estejamos perante uma aventura artística. Nesse sentido, o corpo é o vetor principal da narração", contou à imprensa internacional durante os encontros Unifrance de Paris o coreógrafo Angelin Preljocaj, que realiza Polina a meias com a companheira, a realizadora Valérie Müller.

Esta lenda viva da dança internacional confirmou que a dança que vemos no filme foi criada expressamente para ele: "não quis ir por coisas que existiam e que eu já conhecia. Nunca passei por aquela fase de imaginar como os iria filmar a partir de material já existente... Do ponto de vista da câmara muda tudo quando já existe uma ideia de coreografia. Criei coreografias pensadas para serem filmadas - isso muda tudo! Coreografias que eram imaginadas para apanhar com a câmara de diversos lados. Além do mais, as coreografias criadas conseguem ajudar no desenrolar da narração. São coreografias que contam qualquer coisa, que participam na narrativa!"

Talvez por essa orgânica, Polina ganhe um peso genuíno de dança, passando da dança clássica à dança contemporânea num abrir e fechar de olhos. A vantagem do método de Preljocaj nesta história sobre o percurso de uma jovem bailarina é tornar credível o "sonho" da menina do ballet, da admissão no Teatro Bolshoi às aventuras mais conceptuais nas artes da dança contemporânea. Esta é a sua primeira aventura no cinema, mas sabe-se que este coreógrafo francês de origem albanesa sempre gostou de filmar os movimentos que criou. Preljocaj, que dirige neste momento o Ballet Preljocaj, foi formado em ballet clássico e também guinou para a dança moderna, tendo sido formado por outras lendas como Merce Cunningham ou Viola Farber. Os seus espetáculos já tiveram convite para brilhar em palcos conceituados como o New York City Ballet e a Ópera de Paris.

No filme, quando a personagem de Polina quer experimentar a dança contemporânea, chega a Aix--en-Provence para fazer provas para uma reputada companhia local, dirigida por uma coreógrafa exigente chamada Iria Elsaj, espelho óbvio do próprio Angelin (a sua companhia está na mesma cidade...). Essa personagem é interpretada por Juliette Binoche, cuja ligação à dança é por demais conhecida, sobretudo após espetáculos com Akram Khan, reputado coreógrafo disruptivo. Tratou-se de uma série de espetáculos realizados em 2012, intitulados In-I, onde Binoche foi a protagonista com o próprio Khan e em que a atriz revelava uma entrega total no palco. No ecrã de Polina vemo-la sobretudo a dar corpo a uma coreógrafa ferozmente instintiva, mas há um momento em que sozinha dança no seu estúdio. É um dos momentos mais íntimos do filme, com raro sentido de gravidade (contraste para uma certa leveza que passa esta narrativa). O segmento Binoche é certamente o momento "galinha de ovos de ouro" desta película.

Polina - Danser Sa Vie (em Portugal erradamente prescindiu-se deste revelador subtítulo...), curiosamente é baseado numa banda desenhada de culto de Bastian Vivés, que obedece a uma estética de desenhos a preto e branco muito intensos. Ao contrário do filme, a épica jornada interior e exterior da bailarina heroína não desemboca na Bélgica mas sim em Berlim. A personagem da banda desenhada parece ter uma outra força.

Com uma carreira internacional iniciada em festivais internacionais como Veneza e ainda passagem no primeiro Festival de Macau (com honras de abertura), Polina tem ganho alguma aura de culto, mesmo sendo na sua essência um filme de grande público. Neste caso, um objeto que dialoga com os movimentos certos com a arte da dança. A dança com D maiúsculo....

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