Become Ocean, um oceano em movimento criado no deserto

O DN falou com John Luther Adams antes da estreia, hoje, em Portugal de Become Ocean, vencedora do Pulitzer de Música 2014 e do Grammy para música contemporânea 2015

A ressonância que Become Ocean rapidamente obteve desde a estreia, em junho de 2013, tornou-a uma obra icónica e fez do seu autor, John Luther Adams (n. 1953), figura de proa de uma estética musical dotada de consciência ecológica. Become Ocean é tocada hoje, em estreia nacional, no Grande Auditório da Gulbenkian, em Lisboa, pela Orquestra da Fundação dirigida por Pedro Neves.

"Parecerá estranho, mas Become Ocean foi escrito no deserto mexicano da Baixa Califórnia, junto ao Pacífico!", começa por nos dizer o compositor. "Talvez por isso as "águas" desta peça sejam de latitudes mais baixas, face às de Dark Waves, a peça que lhe deu origem [de 2007], que configuram o Pacífico escuro e agitado das costas do Alasca." Associações destas suscitam sempre a discussão programático vs. abstrato na música: "Veja, tudo quanto eu faço vem da terra/Terra que habito, do mundo natural. É algo de inevitável para mim. Então, por um lado há algo de mimético. Mas para a música poder alcançar a sua maior força e o seu mais profundo significado, tem de vingar enquanto pura e simples música. Se a música não te toca, não te comove, não te revolve em termos estritamente musicais, então ela não resulta e é um logro. Então, nesse sentido, ela tem de ser abstrata "à prova de bala"! Concluindo, Become Ocean é programática e abstrata."

E destes argumentos transparece o credo do compositor: "Eu quero ter e conciliar na minha música as duas esferas: por um lado, o rigor formal e, por outro, o sensorial e o belo. Sempre pensei que haveria algures um "bolo" ao meu gosto e que o poderia vir a comer também", termina, rindo.

A origem do seu universo sonoro situa-a "no Alasca, claro", diz. "Foi lá que o achei e só ali o poderia ter descoberto! Mas, claro, reconheço-me naturalmente como um compositor americano e por isso as minhas referências são primeiramente autores como Ives, Cowell, Varèse, Lou Harrison, Cage, Oliveros, Feldman. Na Europa, sinto afinidade com a obra sinfónica tardia de Sibelius; até certo ponto, com Messiaen - partilhamos o amor pelo canto dos pássaros e a sua tradução em música! - e com Debussy, pelo modo como também ele soube combinar o formal e o sensual. Depois disso, os meus gostos saltam para o século XV e anteriores - por exemplo, Ockeghem."

Em sua defesa vai buscar um compatriota de outra arte: "Veja o Rothko: ele sempre disse que era um formalista e toda a gente dizia que ele era um colorista. Foi preciso conhecer os cadernos de esboços dele para perceber que era ele quem tinha razão! Eu procuro, no fundo, o mesmo que ele: uma coerência interna tal que torna a obra de arte algo de inelutável."

No caso de Become Ocean, essa coerência é dada por "uma única textura musical, que é a ideia de onda", explica. "E como todas as ondas, ela forma e desfaz-se depois. É isso que sucede no decurso da obra em diferentes camadas, que são geradas pelos três grupos orquestrais separados no espaço, cada qual com o seu tempo próprio e com o seu campo harmónico e cor orquestral próprios. De vez em quando, elas encontram-se e criam uma crista: isso ocorre por três vezes."

John Luther Adams tem uma justificação curiosa para a necessidade de controlo formal: "Ele protege a música do mau gosto do compositor", sendo, por isso, "uma forma de me disciplinar" e o meio para atingir o propósito primordial de compor. "Faço-o para descobrir algo, ouvir algo que nunca ouvira antes, para contactar com algo mais misterioso do que aquilo que me é dado compreender."

Por esta via se percebe a sua asserção de que "a arte é muito mais importante para o mundo do que a política". "Os líderes políticos não têm ideias próprias e são incapazes de dar resposta aos grandes problemas da humanidade. É no pensamento criativo - nas artes, nas ciências - que mais do que nunca podemos encontrar respostas para sobrevivermos como espécie neste planeta. E é da própria Terra que procede a nossa esperança. Por isso, cada ato criativo é o nosso modo humilde, curioso e, à nossa dimensão, profundo de reagirmos a esta Terra e ao nosso lugar nela", defende.

O programa de hoje inclui a estreia mundial de Off-balance, de Luís Antunes Pena (n. 1973), e a segunda apresentação (após estreia mundial em São Paulo, a 5 de outubro último) de Museu das Coisas Inúteis-Concerto para violino, do brasileiro Celso Loureiro Chaves (n. 1950).


Become Ocean

Obras de John Luther Adams, Luís Antunes Pena (estreia mundial) e Celso Loureiro Chaves

Orq. Gulbenkian/Pedro Neves

Grande Auditório Gulbenkian, às 21.00

Bilhetes dos 12 aos 24 euros

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