Bach a catorze vozes cantadas "às escuras" por um só corpo

Para escutar Bach o escritor Pedro Eiras desviou-se dele. Ouviu - por vezes transcreveu - as vozes de Anna Magdalena Bach, G.W. Leibniz ou Etty Hillesum. Bach é esse coro de catorze solistas

Fez catorze longas viagens a terras distantes. Pedro Eiras saiu do seu quarto com Bach às costas para escutar "como pessoas desesperadas ouviram Bach, como pessoas com esperança ouviram Bach." Passou por Anna Magdalena Bach, sua segunda mulher, a autora da autobiografia ficcionada desta, Esther Meynell, os cineastas Jean-Marie Straub e Daniêle Huillet, que filmaram essa mesma obra, os músicos Gustav Leonhardt, Glenn Gould e John Cage. Passou por G. W. Leibniz, o filósofo, pela escritora Maria Gabriela Llansol, Martin Luther, por Cristo, por Etty Hillesum a caminho de Auschwitz e pelo médico, músico e teólogo Albert Schweitzer.

Eles emprestaram-lhe as vozes que ele escutou durante os vinte anos em que os procurou compreender. Ele emprestou-lhes a mão durante o tempo em que escreveu Bach e atribuiu uma peça do compositor a cada um. Depois, e de novo, o quarto - "lugar de partida e também lugar da chegada."

"As vozes vão chegando e levam vinte anos a chegar. Depois aparecem todas muito rapidamente, porque já estavam todas latentes, estavam à minha espera", conta o escritor e professor de Literatura Portuguesa na Faculdade de Letras do Porto, sua cidade natal. Diz não se libertar das vozes. "Nem tento. Estou absolutamente fascinado com a paixão de todos estes homens e mulheres." Talvez por isso nota que "há algo que muda radicalmente de cada vez que voltamos a ser nós próprios." Talvez por isso, também, aquela que parece ser a sua própria voz conta como uma das catorze que compõem Bach. É a última e tem o nome 2002. "Uma breve melodia, no meio da noite, tudo o que temos, tudo o que existe em nós", escreve aquele que diz que este é um ofício que se faz "às escuras".

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