Auto-retrato de Leonardo Da Vinci em rara exposição em Turim

Obra raramente é retirada de um cofre subterrâneo. Em Turim, acreditam que o olhar do retrato dá poder a quem o observa e por isso esconderam-no de Hitler.

É um dos auto-retratos mais famosos do mundo, tem cerca de 500 anos e raras vezes tem sido oferecido aos olhares do mundo. A Biblioteca Real de Turim é a detentora do desenho a sanguínea - uma espécie de giz vermelho - em que o próprio Leonardo Da Vinci passou para o papel os traços do seu rosto. E tem-o fechado a sete chaves numa sala subterrânea que pretende evitar danos maiores, causados pela inexorável passagem do tempo.

Mas o auto-retrato de Leonardo, cuja história é tão antiga quanto surpreendente, está exposto a partir de hoje e até ao próximo dia 15 de janeiro de 2015, numa mostra a que a Biblioteca Real de Turim chamou "Leonardo e os Tesouros do Rei". Quase uma centena de obras-primas da coleção da instituição, entre cartas náuticas, manuscritos ou desenhos de Raffaello, Carracci, Perugino, Van Dyck e Rembrandt deixaram os cofres a que normalmente estão confinadas e estarão acessíveis ao público nas salas abertas da biblioteca durante pouco mais de dois meses.

Todas as obras são autênticas preciosidades, mas só uma delas tem estatuto especial: o auto-retrato de Da Vinci é tão valioso e simbólico que, por exemplo, só pode ser deslocado com autorização do governo italiano e o seu transporte exige uma "caixa especial" capaz de manter as mesmas condições de temperatura e humidade da sala subterrânea onde está guardado. Esta caixa é depois acondicionada dentro de várias outras caixas, com o objetivo de evitar qualquer vibração. E o veículo onde for transportada será monitorizado remotamente, acompanhado por uma escolta armada.

O processo é extremamente complexo e, segundo a BBC, é pouco provável que se repita mais vezes: a última ocasião em que o auto-retrato de Leonardo saiu da Biblioteca Real de Turim foi em 2011 para uma exposição no palácio de Venaria Reale, nos arredores da cidade, que marcava os 150 anos da reunificação italiana.

Só nestes casos especiais a instituição equaciona mostrar o desenho de Da Vinci, pelo que a exposição agora inaugurada é uma excelente oportunidade para observar a obra datada de 1515, ainda que alguns peritos considerem que o estilo e a técnica do desenho se identificam mais com os trabalhos de Leonardo na década de 1490. Há mesmo quem se recuse a acreditar que tenha sido Leonardo o autor do retrato, em consequência das convicções do próprio: Da Vinci acreditava que a arte devia representar um ideal e não a face do artista.

Na realidade, sabe-se ainda muito pouco sobre este retrato com cinco séculos. O que domina são sobretudo os mitos construídos em volta do homem que surge no desenho: seja ou não Leonardo Da Vinci, tem um olhar tão intenso e penetrante, mesmo do papel, que os próprios especialistas que se dedicaram à sua restauração admitiram ter arrepios enquanto trabalhavam na obra.

Em Itália, acredita-se que o desenho tem poderes ocultos e na própria cidade de Turim existe o mito de que aqueles que observam o auto-retrato de Leonardo são imbuídos de força e poder. Ao ponto de, durante a Segunda Guerra Mundial, a obra ter sido retirada de Turim e levada para Roma sob sigilo: o objetivo era evitar que caísse nas mãos de Hitler, dando-lhe ainda mais poder. Da coleção de manuscritos e desenhos da Biblioteca Real de Turim, foi o único a ser deslocado. O atual diretor da instituição, Giovanni Saccani, disse à BBC que, ainda hoje, ninguém sabe o local onde foi mantido fora do alcance dos nazis.

Na altura, não danificar a obra terá sido a última das preocupações na operação de transporte, pelo que o desenho está hoje muito deteriorado e é conservado em condições absolutamente excecionais, numa sala subterrânea da Biblioteca à qual só é possível aceder através de portas blindadas e que foi construída em 1998 especificamente para guardar o desenho e outros manuscritos valiosos. A luz natural não entra neste compartimento e a iluminação faz-se unicamente através de fibra ótica. A temperatura é mantida a uns constantes 20º e a humidade a 55%. A caixa de proteção do desenho é feita de um tipo de vidro "anti-tudo", ironiza o diretor da Biblioteca, e a área é permanentemente vigiada com câmaras de segurança e tem alarmes de todo o tipo.

Na penumbra, Saccani usa uma tocha especial para iluminar o caminho e que mostra também as manchas e as marcas bem visíveis no papel frágil em que Da Vinci desenhou o seu auto-retrato. Na parte inferior esquerda do desenho havia uma inscrição que dizia "Leonardus Vincius", mas desvaneceu-se completamente no decorrer dos últimos 200 anos.

A única garantia que a Biblioteca Real pode oferecer é que desde que a obra-prima está guardada nas catacumbas do edifício, os danos não se agravaram. "Este facto conforta-nos", explicou à BBC o diretor da Biblioteca. "Temos de recordar que este é um desenho com 500 anos. Os desenhos que fizemos na escola já nem sequer existem e este foi feito em papel comum, por isso é extraordinário que hoje consigamos expor esta obra-prima".

A forma como o desenho acabou em Turim também é curiosa: foi comprado em 1839 pelo rei Carlos Alberto de Sabóia, por um valor exorbitante para a época: 70 000 liras, quando na altura o salário de um médico, por exemplo, não ultrapassava as 1000. O vendedor, Giovanni Volpato, também era curador e nunca revelou como conseguiu o auto-retrato de Leonardo. E, além do preço, apresentou ao rei outra contrapartida: queria ser o curador dos desenhos da Biblioteca Real de Turim. O monarca acedeu e Volpato, que já tinha o que queria, até lhe fez um desconto: vendeu-lhe o desenho por 50 000 liras e dispensou pagamento pelos seus serviços de curador. Ainda assim, o rei levou oito anos a pagar-lhe o auto-retrato em prestações.

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