As cartas que o Papa trocou com crianças. Entre elas, um português

Sabiam que, em rapaz, Francisco quis ser talhante? E que milagre faria ele se pudesse? As perguntas e as respostas reunidas em Dear Pope Francis, que já tem edição portuguesa prevista

Nunca um Papa escreveu um livro para crianças. Nunca um Papa escrevera um livro com crianças. Francisco foi o primeiro. Dear Pope Francis (Querido Papa Francisco, em tradução livre) reúne 30 cartas trocadas entre crianças de todo o mundo e o Papa. Foram escolhidas num universo de 259 cartas, enviadas de 26 países e escritas em 14 línguas. As crianças perguntam, Francisco responde. A primeira carta que figura no livro publicado neste mês é a de João, um rapaz português de 10 anos. O livro será em breve publicado na sua língua. Os direitos da obra publicada pela Loyola Press - editora jesuíta americana - já foram comprados pela Paulinas para a sua edição em Portugal. Ainda não há, todavia, data prevista para o lançamento.

Quando o padre jesuíta Antonio Spadaro - a primeira pessoa a entrevistar Jorge Bergolgio como Papa há três anos - chegou ao Vaticano numa "quente tarde de agosto" último, bateu à porta do Papa , e lhe mostrou as cartas, Francisco terá dito: "Mas isto são perguntas difíceis!" Às mãos do Papa chegavam perguntas como: "Os nossos familiares falecidos podem ver-nos do céu?" (Emil, 9 anos, República Dominicana), "O que é que Deus fazia antes de criar o mundo?" (Ryan, 8 anos, Canadá), ou "Gostava de dançar, quando era criança?" (Prajla, 6 anos, Albânia).

Chegaremos às respostas. Mas é preciso dizer ainda que as cartas, essas que começavam quase impreterivelmente com um "Querido Papa Francisco", vinham sempre acompanhadas de um desenho. "Noto que às vezes o Papa capta, com a sua subtileza espiritual, o sentido de uma pergunta mais pelas imagens do que pelas palavras que são lidas", recorda Spadaro na obra. Muitas vezes, na resposta que lhes dá, Francisco comenta esses desenhos - "És aquela com o ursinho?" pergunta a Clara. As crianças foram ainda recebidas por Franciscus (como sempre assina as cartas) no Vaticano em fevereiro. Sentaram-se em torno dele e fizeram novas e renovadas perguntas.

Entre o que lhe perguntam os miúdos há muito do que, como diria G.K. Chesterton, "esquecemos que nos esquecemos". "As questões são mais puras do que as dos adultos", e estes "reconhecem-se" nelas, notava Antonio Spadaro à estação Fox News. É preciso salvaguardar, ainda assim, que esta não é a primeira vez que um Papa responde a cartas que lhe enviam as crianças. Spadaro lembra, aliás, que naquela "quente tarde de agosto" em que conversou com o Papa, este evocou o momento em que "Paulo VI recebeu uma carta de um rapaz com muitos desenhos. Disse que, na mesa onde só chegavam cartas com problemas, a chegada desta carta fez-lhe muito bem."

O Papa que queria ser talhante
João escreveu a Francisco: "Quando o vi na Praça de São Pedro senti uma grande alegria porque olhou para mim. O que sente quando olha para as crianças à sua volta?" Francisco fala, na resposta, de "uma grande esperança". Luca, um rapaz australiano de 7 anos, diz a sua mãe "está no céu" e pergunta: Vão nascer-lhe asas?" "Não, não, não! A tua mãe está no céu - linda, esplêndida, e cheia de luz. Não lhe nasceram asas. Ela continua a tua mãe, a pessoa que conheces, mas esta mais radiosa do que nunca", responde Francisco.

Basia, polaca de 8 anos, pergunta-lhe o que queria ser quando tinha a idade dela. "Talhante". Figura que Francisco ia ao mercado com a avó e via com "um longo avental com um grande bolso na frente", "cheio de dinheiro". E "se pudesse fazer um milagre, qual seria?" pergunta-lhe William, de 7 anos, americano. "Curaria as crianças. Nunca consegui perceber por que sofrem as crianças. É um mistério para mim." E "por que já não há tantos milagres?", quer saber Joaquín, peruano de 9 anos. "Quem te disse isso? Não é verdade. Mesmo agora, há milagres." E "para que precisa do chapéu alto?" "As pessoas más também têm um anjo da guarda?" E "por que há tanta gente tão pobre e sem comida?" Por que isto? E por que aquilo? Perguntam as crianças. Saberão por ventura os adultos as respostas?

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