Artista Nuno Cera volta a olhar para a paisagem de Amadeo

Artista foi convidado por Helena de Freitas, curadora da exposição Amadeo de Souza Cardoso (1887-1918), a partir de amanhã no Grand Palais, em Paris, para acrescentar um ponto de vista contemporâneo. Ele voltou às paisagens do artista.

A obra de Nuno Cera chama-se Tour d' Horizon e é um tríptico de ecrãs que vai debitando imagens e imagens que são inauguradas por uma frase de Amadeo de Souza Cardoso, o artista a que é dedicada esta exposição no Grand Palais. "Je travaille d'aprés la nature". Trabalho a partir da natureza.

Nuno Cera, o autor convidado por Helena de Freitas, comissária da exposição, para trabalhar a paisagem de Amadeo de Souza Cardoso. "Começou por ser um trabalho sobre o natural e também é sobre o mundo rural português", explica o autor, na exposição.

"Li muito, comecei na casa dele", explica. Andou pela cozinha da casa de Manhufe, perto de Amarante, que se mantém intacta como no quadro com este nome, Cozinha de Manhufe. Esteve no atelier que pertenceu ao artista, vazio. Filmou o Marão e o Tâmega, a Bretanha e Paris, fugazmente.

"Amadeo tornava a paisagem gloriosa, mas ela é difícil de encontrar", constatou Nuno Cera nas suas viagens. "As montanhas são uns montes", descobriu. "Não é nada fotogénico", afirma, enquanto as imagens, poéticas, se sucedem nos três ecrãs, uma a uma. Vê-se a casa, as montanhas de Paysage, uma solitária casa branca que evoca a que Amadeo pinta.

"Tinha algumas paisagens escolhidas e andei à procura dessa atmosfera", diz o artista, acrescentando: "É um vídeo de atmosferas, não me interessava fazer uma coisa muito direta".

Tour d'Horizon, nome escolhido para a instalação, surgiu "logo no início", conta o artista. Permaneceu, porque "continuou a fazer sentido". Refere-se, em francês, a tudo o que se vê na linha do horizonte.

Manhufe, Bretanha, Paris

Resultou do trabalho de quatro viagens a Manhufe, "uma delas durante um semana", três dias na Bretanha, onde lhe interessava captar imagens do Hotel Keriolet, onde Amadeo de Souza-Cardoso esteve e, de forma breve, por Paris.

Apenas um plano chegou à obra de Nuno Cera - o de um anúncio pintado na parede com uma lua e palavras semi-desaparecidas. A escolha do artista é intencional e frisa o evidente. Apesar de ter vivido oito anos em Paris, "Amadeo não pintou muito Paris". A cera Eclypse é caso único. A palavra aparece numa das últimas obras de Amadeo de Souza-Cardoso e o painel começou a ser recuperado recentemente no Boulevarddes Batignolles, e para o qual Helena de Freitas alertou Nuno Cera, depois de o ter descoberto durante as suas pesquisas em torno da obra de Amadeo.

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