Serralves com mais mulheres, mais global e mais parque

O Museu de Serralves apresentou ontem as linhas gerais da sua programação para 2014 com a diretora artística, Suzanne Cotter, a anunciar sua a intenção de "mudar a perspetiva, do internacional para o global".

Para a diretora do museu, 2014 é o primeiro ano em que assume plenamente a programação de Serralves e o presidente do Conselho de Administração (CA) da Fundação de Serralves, Braga da Cruz, presente na apresentação da programação, vaticinou que o próximo ano será um "ano charneira" para a instituição.

A primeira grande retrospetiva da artista Mira Schendel, nascida na Suíça mas um dos expoentes da arte contemporânea brasileira, uma exposição do trabalho escultórico e gráfico da iraniana Monir Farmanfarmaian, a exposição "12 contemporâneos", comissariada pela própria diretora e "O processo SAAL" que evoca o projeto arquitetónico que marcou o Portugal, pós 25 de Abril, são alguns dos pontos fortes da programação de 2014.

"Há um equilíbrio entre exposições de retrospetiva e projetos mais contemporâneos e mais interativos" resumiu Suzanne Cotter.

Mira Schendel (1919 -1988), a artista que em fevereiro do próximo ano terá em Serralves a sua primeira grande exposição retrospetiva abre o primeiro ciclo de programação da responsabilidade de Suzanne Cotter que, em 2013, assumiu a direção artística do Museu de Serralves. Nascida na Suíça, mas uma das mais importantes artistas brasileiras do século XX, Mira Schendel vai ter expostos mais de 300 trabalhos, entre pinturas, esculturas e desenhos, muitos dos quais nunca mostrados antes.

"Internacional é uma palavra pré-1989", sustentou a diretora na apresentação da programação acrescentando que "quando falamos de arte hoje, sentimos que precisamos de novos termos para falarmos sobre ela e um dos factos é que hoje vivemos inteiramente numa era pós-colonial". A diretora quer "mudar a perspetiva do internacional para o global", pois considera que vivemos um altura do "transacional, em que as coisas não são definidas por nacionalismos, mas por um movimento de ideias e cultura e de projetos artísticos que ultrapassam fronteiras".

As exposições de artistas com geografias indefinidas, ou provenientes de regiões em convulsão como o Médio Oriente, de muitas mulheres e paralelamente trabalhos com a presença contínua dos artistas na totalidade do espaço de Serralves e não só no museu, são também algumas das marcas que sobressaem das propostas para 2014.

Monir Farmanfarmain, artista iraniana mas com uma permanência longa em Nova Iorque, que será objeto de uma exposição em outubro, é outro exemplo deste diluir de fronteiras e também da forte presença feminina este ano. "Acho que acontece que alguns dos artistas com mais impacto nesta altura são mulheres, não se trata de preencher uma cota", justificou a diretora.

Num ano em que celebra 15 anos de museu e 25 anos de fundação, Serralves vai também ter uma grande exposição baseada na sua coleção, em maio, que se espalhará também pela Casa e pelo Parque. A ocupação de todo o espaço de Serralves foi uma preocupação da diretora que fez a conferência de apresentação da programação acompanhada pelo diretor do Parque, João Almeida.

Para além da tradicional programação em torno do Ambiente, o Parque será objeto de uma exposição, "O Parque em Macro" e o artista Nairy Baghramian vai criar uma nova peça para o espaço exterior do museu.

Queremos conceber Serralves como um espaço "para os artistas, não só para os seus trabalhos mas um espaço para os artistas trabalharem e para o público os poder encontrar" para "tomarem parte um diálogo sobre a arte contemporânea de como ela esta a mudar e a tornar-se mais participativa".

A diretora, com nacionalidade australiana e britânica, não vê "o programa artístico como só de exposições com programas paralelos" mas algo que é "concebido como um todo em que há pontos de ligação mas também momentos de independência". "Projetos contemporâneos" e "Novas perspetivas" são dois novos eixos da programação que perseguem esta ideia de transversalidade.

Para o final do ano, Serralves está ainda prevista uma exposição evocativa do Serviço o Ambulatório de Apoio Local (SAAL) que evoca a experiência pós 25 de Abril de tentar envolver arquitetos e populações carenciadas na construção de uma nova ideia de habitação social.

Mas Suzanne Cotter deixou também patente que isto ainda é só o arranque do seu trabalho: "O programa não vai de janeiro até dezembro, o programa vai de agora até 2018 ou 2020, isto é o começo mas espero que seja já um mapear de alguns território e de algumas posições e um deles é como é que podemos pensar globalmente e como podemos fazer que isso tenha impacto aqui em Portugal".

E deixou o apelo: "Venham connosco nesta viagem, porque nos próximos cinco anos estamos a planear muitas coisas excitantes e sim, há riscos, mas não é interessante se não houver riscos".

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