“O que eu faço é reinterpretar num objecto estético alguma coisa que me estimulou”

Seis exposições simultâneas em lugares de referência patenteiam uma visão alargada da obra de 26 anos de trabalho de Luís Campos.


Centro Cultural de Cascais, Governo Civil de Lisboa, Centro de Artes de Sines, Museu da Luz, Museu de Arte Contemporânea de Elvas e a Fundação António Prates foram mobilizados pelo Museu Temporário para esta mostra inédita que envolve uma vasta área do Sul do país até ao próximo dia 21 de Setembro, pondo em evidência um itinerário cultural único. Como pensa o seu trabalho, onde pesquisa e como o desenvolve? O meu universo é a vida e a realidade que me rodeia, exterior, mas também pode ser algo que se relaciona com o meu mundo interior. Nesse universo, qualquer coisa que suceda e que me interpele e estimule pode ser objecto do meu trabalho. A fotografia ou o vídeo funcionam como interface entre o meu entendimento sensível dessa realidade, a forma como eu a entendo e sinto, e a própria realidade. O que eu faço é reinterpretar num objecto estético alguma coisa que me estimulou. E que tipo de temas e assuntos o estimulam?


Há o tema da perda, num sentido genérico. Pode ser desde a perda radical, que acontece na morte, e tenho algumas séries radicadas nessa temática, como a exposição “Limiares”  que realizei em 1993, ou uma série de 1995, “Última Visão dos Heróis”, em que aparecem imagens que recriam poeticamente a suposta última imagem que cada herói viu  imediatamente antes de morrer. Pode ser a perda da memória e da identidade dos pequenos sítios, a perda da ligação entre as pessoas e a paisagem, os sítios ligados à  paisagem, com o acontece na exposição “Aldeia da Luz”.


Depois há a ideia de limiar. Em quase todas as exposições está subjacente essa ideia, que é um tema transversal no meu trabalho. O limiar quer em termos de espaço, quer temporal. Finalmente, o rosto, como afirmação da identidade das pessoas, como espelho da transformação do tempo e marca do tempo sobre as pessoas, eventualmente como retrato da alma, mas com a sua opacidade. Trabalha essencialmente questões do quotidiano, mas como escolhe um tema e que passos dá até à concretização de um trabalho?


O tema surge e impõe-se, por vezes resultante de uma inspiração, um rosto, uma paisagem, em qualquer coisa que intuo a partir das coisas que me cercam, e depois vão-se  juntando e encaixando elementos uns em relação a outros. Depois, o próprio processo de decisão ou de operacionalização do objecto traz transformações àquilo que vai ser a fotografia ou o vídeo final. Há uma presença metafórica muito forte no seu trabalho. É intencional ou surge naturalmente?


Algumas séries têm forte pendor poético. É o caso dos dois trabalhos sobre a Aldeia da Luz, quer a “Aldeia da Luz”, agora exposta na própria Aldeia da Luz, quer a “Memória da  Água”, agora no Centro Cultural de Cascais. Para “Aldeia da Luz”, distribuí máquinas pelas pessoas e pedi-lhes que fotografassem casas, ruas, hortas, o rio, as coisas de que se iriam separar. Há aqui um acto de separação e de luto, mas ao mesmo tempo de preservação simbólica. Essas fotografias foram mostradas depois no chão inundado de água no Museu da Electricidade. Na “Memória da Água” esse desaparecimento é significado através de um processo de desfocagem. Os objectos fotografados foram rochas, as margens do rio, a corrente que ao longo de milhões de anos moldou, modelou, a paisagem.  


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