Vídeo para os U2 fez Vhils "puxar limites" e explorar novos caminhos

O vídeo criado pelo artista português Alexandre Farto, que assina como Vhils, para o projeto "Films of Innocence", dos irlandeses U2, levou-o a "puxar limites" e "explorar uma série de caminhos novos", como contou à Lusa.

"Films of Innocence", a ser editado na terça-feira, é apresentado como uma coleção de filmes artísticos inspirados em "Songs of Innocence", o mais recente álbum dos U2, que conta com a colaboração de "onze dos mais aclamados artistas urbanos do mundo".

As referências musicais de Vhils, o artista de 27 anos, estão mais ligadas aos universos do "hip-hop" e da "soul", mas a banda "rock" irlandesa, especialmente com temas como "Sunday bloody sunday", "esteve sempre presente".

Acima de tudo, Alexandre Farto tem "um grande respeito pelo trabalho de ativismo que [os elementos da banda] sempre tiveram".

"Não há muitas bandas que queiram correr esse risco, e algumas vezes eles perdem por isso. É corajoso da parte deles", disse. Além disso, "em todos os projetos que fazem, tentam sempre empurrar um bocadinho as barreiras do que é convencional".

"Daí ter aceitado o convite [que foi feito em julho] e ter ficado motivado com o projeto", revelou.

A Vhils calhou o tema "Raised by Wolves", que decidiu rodar, no final de agosto, nos estaleiros da Lisnave e em Cacilhas, no concelho de Almada, sítios próximos do Seixal, local onde cresceu.

"Tive a sorte de eles terem escolhido esse tema, [porque] o som e a letra têm uma relação muito forte comigo. 'Raised by Wolves' tem muito que ver com a ideia da maneira como tu és afetado pelo meio onde cresces", disse.

O 'briefing' feito pela banda, contou Vhils, teve, como ponto de referência, os murais políticos irlandeses, "que têm uma carga política de intervenção muito forte".

Naquela zona onde Alexandre Farto cresceu, foram feitos muitos murais do pós-25 de Abril [de 1974], "altura em que houve um ativismo e movimento muralista muito forte" em Portugal.

"Essa relação toda e o facto de ter crescido naquela zona" fizeram Vhils escolher a Lisnave e Cacilhas.

Mas não só: "Já tinha feito trabalhos na Lisnave e é um sítio que tem um potencial enorme. É um sítio incrível, que está ali parado há não sei quantos anos. Já que houve oportunidade de fazer o projeto, fazia todo o sentido [ser feito ali]".

Quando aceitou o convite dos U2, garante que não o fez a pensar na sua carreira.

"Fiz pelo desafio e pelo próprio projeto, que me interessa bastante. É bom perceberes que o teu trabalho chega a pessoas que veem muita coisa, mas, mesmo assim, reparam e gostam do trabalho. Sem dúvida é algo positivo", afirmou.

O desenvolvimento do vídeo foi seguido de perto pela banda. "Eles acompanham sempre muito os projetos. Tive 'feedback' logo desde o início. Gostaram imenso e isso é bom", revelou.

No vídeo, há lobos e pessoas a deslocarem-se em câmara lenta, há explosões que revelam palavras e ainda palavras a arder.

"Dado o contexto do projeto, fez-me puxar os limites de todos os processos que já tinha feito, então deu-me para explorar uma série de caminhos novos, que possivelmente vou explorar ainda mais", adiantou Vhils.

Para não "tirar a magia da 'coisa'", revelou pouco sobre o vídeo, mas deu para ficar a saber, por exemplo, que Vhils andou "com uma 'phantom' [uma espécie de helicóptero telecomandado que tem acoplada uma câmara de filmar] na rua, o que nem sempre é a coisa mais fácil".

Esta não foi a primeira vez que Alexandre Farto fez vídeos para bandas. Já tinha criado para os Buraka Som Sistema, Orelha Negra e Macacos do Chinês. "O vídeo sempre foi um dos media que mais me interessou e dirigir é uma coisa de que gosto também, realizar uma ideia", contou.

Além de Vhils, "Films of Innocence" conta com a participação de Oliver Jeffers, Robin Rhode, D*Face, Mode 2, Chloe Early, Ganzeer, Maser, ROA, DALeast e Todd James.

Cada um dos artistas criou um vídeo para cada uma das canções do mais recente álbum dos U2, "Songs of Innocence", que saiu em setembro, em formato digital, numa parceria com a empresa Apple, tendo tido edição física em outubro.

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