Uma oportunidade para repensar coleção Miró

A decisão da Christie's de cancelar o leilão dos quadros de Miró, provenientes do ex-BPN, pode ser uma oportunidade para Portugal "pensar, refletir e reavaliar" uma estratégia, segundo o subdiretor do Museu Rainha Sofia de Madrid, João Fernandes.

Em declarações à Lusa, o ex-diretor do Museu de Serralves e atual subdiretor do Museu Rainha Sofia de Madrid, que alberga uma das coleções mais importantes de Joan Miró, considerou que essa estratégia para as obras pode passar por deixar em Portugal parte da coleção.

"Enriquecer o património artístico português seria um objetivo nobre e importante", disse à Lusa, em Madrid.

Admitindo "surpresa" pela forma como todo o processo tem decorrido, Fernandes considera mesmo que o eventual valor de mercado pode ficar aquém do "enriquecimento" que as obras representariam para Portugal.

"Tem faltado clarividência e estratégia. Como interessado, prefiro que estas obras estejam num museu do que numa coleção privada, na China ou noutro sítio, onde nunca mais ninguém as vai poder ver".

João Fernandes rejeita os argumentos economicistas sobre o valor que possa reverter para o Estado, pela venda das obras em leilão, considerando que, "mesmo em termos de investimento económico, o país enriquece com as obras de arte que tem", especialmente de artistas de relevo.

"É uma das grandes riquezas de um país, e lamento que não esteja a ser equacionada. Parece ser muito pouco o que se vai obter [no leilão] com o muito que se poderia obter ao longo do tempo, com o enriquecimento do património", afirmou.

João Fernandes destaca a "surpresa" pelo facto de as 85 obras terem estado "todo este tempo em Portugal, sem serem mostradas" e agora saírem sem que tenha havido "qualquer estratégia ou plano" sobre o que fazer em relação aos quadros.

"Em Portugal não existem obras de Miró de grande relevo, no contexto da evolução do artista. A coleção é muito escassa. E [o aparecimento destes quadros] poderia ser uma ocasião de enriquecer o património que, de outra forma, muito dificilmente se poderia incorporar", sublinhou.

O especialista sublinha que não é necessário considerar todas as obras em conjunto mas que se deve realizar um estudo e uma análise sobre o seu relevo, sendo que, no próprio Rainha Sofia já se reconheceu a importância de algumas das peças.

Destaca "obras bastante importantes e muito representativas" de vários períodos, nomeadamente as anteriores a 1940 e em particular as dos anos de 1920 ou da série que começa em 1936, ano do início da Guerra Civil de Espanha.

Fernandes sublinha que o Rainha Sofia não tem condições económicas para comprar as obras em leilão, onde tem de competir "com valores especulativos".

"Com artistas históricos como Miró não há muita obra disponível no mercado e há novos colecionadores e novos investidores que colocam preços a tal nível que se tornam inacessíveis para os museus", disse.

Na terça-feira o secretário de Estado da Cultura reafirmou que a coleção Miró, proveniente dos ativos do antigo BPN, não era uma prioridade para o Governo e que sua transferência para a área da Cultura tinha custos para os portugueses.

Em declarações à Lusa, também na terça-feira o historiador de arte Pedro Lapa, autor de um parecer sobre as obras para a Direção Geral do Património Cultural, considerou que a intenção de o Governo vender as obras foi um "erro em que se insistiu durante muito tempo" e que "se voltou contra o próprio país".

Pedro Lapa defendeu que as obras deviam ser "imediatamente" classificadas.

Ler mais

Exclusivos

Premium

Opinião

Pode a clubite tramar um hacker?

O hacker português é provavelmente uma história à portuguesa. Rapaz esperto, licenciado em História e especialista em informática, provavelmente coca-bichinhos, tudo indica, toupeira da internet, fã de futebol, terá descoberto que todos os estes interesses davam uma mistura explosiva, quando combinados. Pôs-se a investigar sites, e-mails de fundos de jogadores, de jogadores, de clubes de jogadores, de agentes de jogadores e de muitas entidades ligadas a esse estranho e grande mundo do futebol.

Premium

Opinião

"Orrrderrr!", começou a campanha europeia

Através do YouTube, faz grande sucesso entre nós um florilégio de gritos de John Bercow - vocês sabem, o speaker do Parlamento britânico. O grito dele é só um, em crescendo, "order, orrderr, ORRRDERRR!", e essa palavra quer dizer o que parece. Aquele "ordem!" proclamada pelo presidente da Câmara dos Comuns demonstra a falta de autoridade de toda a gente vulgar que hoje se senta no Parlamento que iniciou a democracia na velha Europa. Ora, se o grito de Bercow diz muito mais do que parece, o nosso interesse por ele, através do YouTube, diz mais de nós do que de Bercow. E, acreditem, tudo isto tem que ver com a nossa vida, até com a vidinha, e com o mundo em que vivemos.

Premium

Marisa Matias

Mulheres

Nesta semana, um país inteiro juntou-se solidariamente às mulheres andaluzas. Falo do nosso país vizinho, como é óbvio. A chegada ao poder do partido Vox foi a legitimação de um discurso e de uma postura sexistas que julgávamos já eliminadas aqui por estes lados. Pois não é assim. Se durante algumas décadas assistimos ao reforço dos direitos das mulheres, nos últimos anos, a ascensão de forças políticas conservadoras e sexistas mostrou o quão rápida pode ser a destruição de direitos que levaram anos a construir. Na Hungria, as autoridades acham que o lugar da mulher é em casa, na Polónia não podem vestir de preto para não serem confundidas com gente que acha que tem direitos, em Espanha passaram a categoria de segunda na Andaluzia. Os exemplos podiam ser mais extensos, os tempos que vivemos são estes. Mas há sempre quem não desista, e onde se escreve retrocesso nas instituições, soma-se resistência nas ruas.

Premium

Maria Antónia de Almeida Santos

Ser ou não ser, eis a questão

De facto, desde o famoso "to be, or not to be" de Shakespeare que não se assistia a tão intenso dilema britânico. A confirmação do desacordo do Brexit e o chumbo da moção de censura a May agudizaram a imprevisibilidade do modo como o Reino Unido acordará desse mesmo desacordo. Uma das causas do Brexit terá sido certamente a corrente nacionalista, de base populista, com a qual a Europa em geral se debate. Mas não é a única causa. Como deverá a restante Europa reagir? Em primeiro lugar, com calma e serenidade. Em seguida, com muita atenção, pois invariavelmente o único ganho do erro resulta do que aprendemos com o mesmo. Imperativo é também que aprendamos a aprender em conjunto.