Mobiliário feito com madeira de barcos africanos Dhow

Das árvores africanas, a madeira transforma-se em barcos Dhow. Cinquenta anos depois, quando já não podem entrar no mar, estas embarcações transformam-se em peças únicas de mobiliário, que podem agora ser vistas, pela primeira vez, em Portugal.

 

Estas peças - camas, mesas, cadeiras, molduras, sofás, utensílios de cozinha - estão agora em Cascais, onde abriu a primeira galeria em Portugal (e na Europa) deste tipo de material.

Os Dhow são barcos de vela latina feitos à mão que ainda se encontram no Oceano Índico, entre Goa e Omã. Quando estas embarcações deixam de ser úteis às populações, são compradas por um grupo de mulheres holandesas que os transforma - com a ajuda de artesãos locais (os fundis) - em peças de arte.

Anna Catharina, proprietária da House of Wonders de Cascais, explicou que, nos anos em que os barcos ainda estão operacionais, a madeira não é aproveitada. ""às vezes oferecem-nos os barcos, mas nós não os compramos. Só os compramos quando a sua vida acabou enquanto Dhow", disse.

Desta forma, o artesanato e o negócio não influenciam as tradições das populações locais, que acabam também por ganhar dinheiro com a venda dos barcos velhos, podendo, depois, construir novas embarcações, o que acaba por ser "bom para toda a gente". Até para a natureza.

Cada peça é única, o que explica, em parte, os preços elevados. "Seis cadeiras com o mesmo design e com o mesmo tamanho são sempre seis cadeiras com personalidades diferentes", porque "é tudo feito à mão".

"Não temos electricidade nem ferramentas eléctricas no atelier. Os nossos artesãos não querem tocar em electricidade, dizem que a madeira só pode ser tocada pelas mãos e por ferramentas tradicionais, porque é assim que deve ser. As ferramentas eléctricas iam estragar a madeira e a forma", conta Anna Catharina.

A galeria House of Wonders, que já tem espaços na Tanzânia, nas Ilhas Virgens britânicas (Caraíbas) e nos Estados Unidos da América, chegou agora à Europa. Portugal foi a porta de entrada para um mercado novo.

"Escolhi Portugal porque Portugal é um país que gosta de produtos reais, produtos autênticos. Há uma forte ligação com o mar. Portugal tem alma, a nossa mobília tem uma alma, acho que é uma ligação muito natural", confessa Anna Catharina.

A galeria, que é também a casa onde mora agora Anna Catharina, está aberta todos os dias e pode ser visitada por quem tiver curiosidade de conhecer o estilo Dhow. A holandesa, que prefere ser considera "uma cidadã do mundo", tem chá e sangria para oferecer.


 

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