Branco, sul-africano, pai - este é Pieter Hugo

"Este é o Lugar/ This Must Be the Place" é uma exposição que faz "um apanhado" do trabalho fotográfico de Pieter Hugo. Inaugura amanhã e fica até 1 de junho na Fundação Calouste Gulbenkian, em Lisboa.

Pieter Hugo, hoje com 38 anos, começou por ser fotojornalista. "Não era muito bom, os meus reflexos eram muito lentos. Não tinha o estômago nem a força que eram necessários", recorda. Por isso, assim que pôde, começou a fazer o seu próprio trabalho. A descobrir qual seria o seu olhar sobre o mundo se não houvesse uma agenda a determiná-lo. "Sou um sul-africano branco. E isso, obviamente, influencia o meu olhar. Isto era um problema, mas eu decidi transformar este problema no núcleo do meu trabalho."

E começou a fazer retratos. A convidar os amigos para irem ao seu estúdio. Foi aí, no ambiente mais artificial, em poses perfeitamente ensaiadas, que encontrou uma fotografia que "era mais realista do que o jornalismo". O retrato tem ainda uma característica que agrada a Hugo: sente-se a relação entre o fotógrafo e o sujeito fotografado, porque há um olhar direto para a câmara.

A série "Olhares Indiferentes. Retratos de Estúdio" (2003-2006) é exatamente isso - uma série de retratos de pessoas que por algum motivo são diferentes (albinos, cegos, velhos) e que nos confrontam, "que nos fazem sentir auto-conscientes", diz Pieter Hugo.

Como na série "Os Despojados" (2005) - três imagens apenas do rosto de três cadáveres no seu caixão. "São pessoas que morreram devido à Sida", explica o fotógrafo. E mais do que mostrar a morte havia aqui uma clara intenção política de dar um rosto à Sida.

Mas também na série "A Hiena e Outros Homens", que o tornou famoso em 2007, com uma trupe da Nigéria que se exibe com uma hiena; nos "Vestígios de um Genocídio" (2004) onde mostra o que ficou do massacre no Ruanda, dez anos depois; na série "Erro Permanente" (2009-2010), que mostra o cenário apocalíptico do mercado de Agbogblosgie, em Acra, no Gana; na série "Messina/Musina" (2006), retrato de uma cidade que é também, como o próprio reconhece, um trabalho sobre a família; ou ainda na extraordinária e quase burlesca série "Nollywood" (2008-2009), um trabalho que foi "quase como um happening" feito em colaboração com os atores da cidade do cinema.

A inclusão e a exclusão, o outro e nós, o igual e o diferente, continuam a ser um dos eixos. Mesmo se, nos últimos anos, e depois de ter casado e ter tido filhos, o seu olhar se tornou mais pessoal - e aí está série "Kin/ Parentesco" para o provar. Nesta série, em construção há seis anos, Pieter Hugo junta fotografias que, de alguma forma, têm a ver com o seu novo lugar no mundo. "Há mudanças quando temos filhos. Comecei a perguntar-me como é possível viver na África do Sul hoje. Como responder a estas contradições. Qual a minha responsabilidade. O que posso fazer para mudar alguma coisa." A série inclui uma imagem (linda) da sua mulher , Tamsyn, grávida do primeiro filho. E nua. A filha, Sophia, no seu primeiro dia de vida. E depois mais crescida. A avó, Anna. A mãe, Lize, mostrando as cicatrizes da mastectomia. Mas também uma paisagem que o tocou. O pedinte que se atravessa no seu caminho todos os dias. A babysitter que cuidou da família durante anos.

Este é, afinal o lugar de Pieter Hugo. A não perder, na Fundação Gulbenkian, em Lisboa, até 1 de junho.

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