Achados de arte ruprestre é um dos principais da Europa

A arqueóloga Mila Simões de Abreu considera que as gravuras de Foz Côa são ainda hoje uma das principais descobertas de arte rupestre ao ar livre da Europa, que foram salvas por um esforço colectivo que travou a construção da barragem.

O museu do Côa, com inauguração agendada para sexta feira, representa um momento alto para todos os que alertaram para os riscos provocados pela construção de uma barragem junto a um dos maiores achados de pinturas rupestres do mundo.

Foi no decorrer de uma visita informal a Vila Nova de Foz Côa, que a docente na Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro (UTAD) e representante da Federação Internacional das Organizações de Arte Rupestre, viu pela primeira vez as gravuras.

'Quando fui ver a situação era muito má porque a barragem já estava a ser construída e muitas das gravuras estavam debaixo de água', afirmou à Agência Lusa.

Para a arqueóloga, 'Foz Côa foi uma grande descoberta: Não existia nada de semelhante e foi bastante emocionante porque contradizia um pouco os estudos de arte rupestre que diziam que o estilo paleolítico era uma arte de grutas. Conheciam-se algumas coisas esporádicas ao ar livre, mas não havia nada da dimensão que tem Foz Côa'.

Para Mila Simões de Abreu ainda hoje este é 'o sítio mais importante que se conhece de arte paleolítica ao ar livre na Europa'. 'Ainda não há nenhum maior', sublinhou.

Foi a arqueóloga da UTAD que deu início ao 'longo processo' que acabou por travar a construção da barragem: "Um acto de coragem pelo qual os portugueses são reconhecidos. São muitos os que me abordam e se lembram do lema 'as gravuras não sabem nadar' que correu o mundo'.

O primeiro passo foi contactar o departamento de Arqueologia do então Instituto Português do Património Arquitectónico (IPPAR) que, segundo a responsável, não tinha uma 'boa avaliação' de qual a 'importância da descoberta', e envolver a Federação Internacional das Organizações de Arte Rupestre,

'O que eu vi no início era muito pouco, mas já o pouco dava para compreender que era um sítio excepcional', referiu.

Só que como 'não houve uma reação imediata por parte do Estado', Mila Simões de Abreu deu início a um movimento para a salvaguarda da arte rupestre que envolveu a comunidade escolar, jornalistas, o público em geral e políticos, percorreu todo o país e atravessou fronteiras.

"No início não era uma luta contra a barragem, não era esse o objetivo, mas sim que as gravuras fossem estudadas. Só que, no espaço de um mês foram feitas outras descobertas e verificou-se que não havia lugar para um compromisso, ou seja, que não se podia construir a barragem", frisou.

A luta durou um ano e no final a construção da barragem foi suspensa.

'Para mim o essencial aconteceu. A barragem não foi construída e as gravuras podem ser usufruídas por todos os cientistas, investigadores, pelas escolas e público em geral', salientou.

Seguiu-se o reconhecimento da UNESCO, tendo sido o processo 'mais rápido' de classificação como património mundial da humanidade.

Mas a arqueóloga não esconde uma desilusão quanto ao que veio a seguir.

Mila Simões de Abreu foi muito crítica da 'gestão fechada' dos anos iniciais do Parque Arqueológico do Vale do Côa (PAVC) mas ainda acredita que as 'gravuras se possam transformar num grande pólo de desenvolvimento'.

E diz que espera que a abertura do Museu de Arte e Arqueologia do Côa possa estimular as visitas àquele local.

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