"A Substância do Tempo", de Jorge Martins, em Serralves

"O que espero é encontrar alguma ordem a partir desta desordem inicial". É este o desejo de Jorge Martins relativamente à retrospetiva "A Substância do Tempo", que está desde ontem patente no Museu de Serralves, no Porto. Paralelamente a esta exposição antológica, Suzanne Cotter, a nova diretora do museu, também inaugura a "Colecção de Serralves:Obras recentes".

Uma retrospetiva com mais de duas centenas de obras criadas por Jorge Martins entre 1965 e 2012, assim é "Substância do Tempo", patente a partir de ontem no Museu de Serralves, no Porto. Para além do museu de Suzanne Cotter, a mostra também figurará na Fundação Carmona e Costa, em Lisboa. "Na capital há uma maior percentagem de desenhos figurativos do que aqui [no Museu de Serralves] e como as minhas primeiras obras são de menor dimensão aqui ficavam um pouco perdidas", revelou ontem Jorge Martins à imprensa, enquanto explicava o caráter abstrato dos seus desenhos patentes no museu do Porto.

Jogos de sombras e luzes, pequenos pontos (estrelas) perdidos no espaço sideral negro, o contraste entre o preto e o branco, pequenas brincadeiras com linhas e superfícies, é o que Jorge Martins leva a Serralves. Embora sejam revisitados os trabalhos mais antigos do artista plástico e pintor português, a mostra também revela muitos dos seus desenhos recentes. Obras que se apropriam de elementos do quotidiano e refletem também a vivência de Jorge Martins em Paris e Nova Iorque.

Gerardo Burmester, Pedro Cabrita Reis, Marcelo Cidade, José Pedro Croft, Carla Filipe, Rita Mcbride, Charlotte Moth, Paulo Nozolino, Damián Ortega, João Penalva, Fernando José Pereira, Ana Maria Tavares, Guy Tilliam, Francisco Tropa, Adriana Varejão e !Von Calhau são os artistas representados este ano na "Colecção de Serralves:Obras recentes."

A mostra tem como principal intuito demonstrar as novas formas de produção artística dos últimos dez anos. Voltada para a contemporaneidade, "todos os trabalhos que vamos mostrar foram produzidos na última década, pelo que devem ajudar a ter uma visão de certas atitudes e ideias em torno da forma como se faz arte contemporânea", explicou a diretora do museu, Suzanne Cotter, aos jornalistas.

Sobre os trabalhos dos artistas portugueses que a diretora escolheu para a mostra, Suzanne Cotter revelou ao DN que "são muito fortes e interessantes mas também estou muito curiosa e frustrada ao mesmo tempo porque queria mostrar tudo e não posso. Queria aprender mais."

"Têm muitas ideias e poucos meios", assim descreve Suzzane Cotter o trabalho dos artistas contemporâneos portugueses. "Muito interesse na cidade, nas histórias, no ambiente e uma posição crítica muito forte", são estas as tendências que a nova diretora nota na arte contemporânea portuguesa.

Ambas as exposições estarão patentes até dia 10 de junho

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