Arte portuguesa na Arco consegue escapar à crise

A Feira Internacional de Arte Contemporânea de Madrid abre hoje as portas ao público. Mas, como habitualmente, os coleccionadores e instituições tiveram dois dias para fazer as primeiras compras e reservar o que lhes interessa. Para já, o cenário não é mau para os galeristas portugueses

Como sempre, os galeristas são cautelosos. Não gostam de falar de negócios antes de se concretizarem, muito menos de prever resultados de uma feira que só hoje será inaugurada pelos Príncipes das Astúrias. Mas, a avaliar pelos dois dias consagrados a coleccionadores e profissionais, a arte portuguesa presente na 28.ª Arco está a passar ao lado da crise.
Ontem, jornais como o El País e o El Mundo falavam de "ressaca" económica e da "arte de regatear" nesta edição da Feira Internacional de Arte Contemporânea de Madrid. Acrescentando que muitas galerias espanholas apostaram em obras baratas para escapar à recessão. Por 20 euros, por exemplo, havia óleos de Amaya González Reyes que reproduziam facturas de restaurantes, táxis ou supermercados. Obras com boa saída.
"Penso que isso é um erro, porque, de facto, o que se vende é o bom. Os stands que trouxeram obras inéditas para a feira estão a ter resultados positivos", afirmava ontem ao DN, por telefone, Manuel Santos, director da Galeria Filomena Soares.
Com pintura de Rui Ferreira à venda por 3000 euros e fotografias de Helena Almeida por 100 mil euros, este responsável garante que "não se nota a crise". "Estamos a vender razoavelmente bem, como nos outros anos", acrescenta, revelando que já vendeu trabalhos de José Pedro Croft, Vasco Araújo e Helena Almeida, e que os artistas nacionais têm tido muita procura de museus e fundações espanholas.
Na Quadrado Azul, Manuel Ulisses tem "várias propostas de compra" e diz mesmo que "este é o momento ideal para as pessoas fazerem as suas colecções". "O mercado está activo, e o nosso não tem os problemas que afectam os grandes leilões internacionais e as peças de milhões de euros", explica.
Ali, a obra mais barata é uma pintura de Hugo Canoilas (4500 euros) e a mais cara uma pintura de Ângelo de Sousa (50 mil euros). As quatro projecções de Francisco Tropa estão também a despertar "muito interesse", conta ao DN o galerista, lamentando apenas que as instituições públicas portuguesas não estejam a comprar arte, contribuindo assim para apoiar os artistas e as galerias.
Na Presença, Maria de Belém Sampaio admite que "as pessoas estão muito interessadas mas estão a demorar mais a comprar". Os preços, aqui, vão dos 2200 euros dos desenhos de Adriana Molder aos 40 mil euros das fotografias de Helena Almeida - que tem patente uma grande exposição na Fundação Telefónica de Madrid.
"Viemos com zero expectativas e qualquer coisinha é sempre positiva", reconhece, por seu lado, José Mário Brandão, da Galeria Graça Brandão. Tem "muitas reservas", mas as vendas estão "um bocado paradas".
"Quer queiramos ou não, a arte é para uma elite. Trazer peças mais baratas? Só se for para casas de decoração", dispara com ironia o galerista.
Este ano são apenas nove as galerias portuguesas que alugaram stands. E o apoio prometido pelo Ministério da Cultura - 8000 euros para quem provar que teve prejuízo - é visto mesmo por José Mário Brandão como "uma atitude paternalista".
Os balanços só se farão na segunda--feira mas, para já, há "outros valores a ter em conta, como as portas que se abrem e que podem dar frutos no futuro", refere o galerista da Graça Brandão, dando como exemplo o interesse em torno da dupla Pedro Paiva/João Maria Gusmão e a retrospectiva da brasileira Lygia Pape, a organizar pelo Museu Reina Sofia.

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