Um dia de portas abertas no Palácio das Necessidades

Nem habita o topo de uma colina sobranceira nem tem pela sua frente um vasto terreiro que deixe descobrir a sua imponência. Discreto, morando entre o casario, com o rio pela frente, o Palácio das Necessidades foi uma entre as várias residências reais lisboetas que serviram a Dinastia de Bragança.

Foi residência, não por muito tempo, de D. Pedro IV (que tomou as Necessidades como símbolo de uma nova ordem liberal, por oposição à Ajuda, onde habitara o irmão D. Miguel, último rei absolutista), mais tarde de D. Maria II, D. Pedro V, D. Carlos e D. Manuel II. Fechado depois da revolução de 1910, feito o respetivo inventário pouco depois e "casa" do Ministério dos Negócios Estrangeiros desde 1926, é, tal como o Palácio de Belém (também antiga residência real), um espaço habitualmente fechado ao público. As portas abrem-se de vez em quando, e já vai sendo tradição que acolha olhares curiosos durante as visitas no quadro da Lisboa Open House. Assim foi mais uma vez, ontem com o valor acrescentado de ter tido por cicerones o Embaixador Manuel Côrte-Real (autor de O Palácio das Necessidades, livro que conta também com fotografia de António Homem-Cardoso) e Guilherme Pedrosa.

O palácio está ali porque há uma velha história de doenças e fé que começou por erigir no local uma pequena capela. Memórias que nos levam ao tempo da dinastia dos Filipes... Incólumes a uma das muitas "pestes" que assolavam a Lisboa de então, dois lisboetas regressaram à cidade depois de se terem afastado por uns tempos. Dando graças fundam a capela, que ganha notoriedade, a imagem de Nossa Senhora da Saúde chegando a ser semanalmente visitada por D João IV (já depois da Restauração em 1640, portanto) e sendo mais tarde chamada mesmo para "residências" no Paço da Ribeira durante enfermidades do rei. Assim aconteceu com D. João V, que acabaria por pensar uma solução alternativa, que agradou aos moradores locais que muitas vezes viam a imagem da sua capela ser levada para longe: porque não construir um pequeno paço no local, deslocando-se o doente para lá e não a imagem para perto do doente? Assim foi, ao pequeno paço juntando-se também um convento.

O palácio que hoje acolhe o ministério e ontem recebeu visitas é certamente bem diferente do que D. João V mandou erigir, tendo recebido melhoramentos significativos quando D. Maria II dele fez a principal residência real em Lisboa, sofrendo novas intervenções mais tarde, com D. Carlos.

O corpo que se visitou ontem corresponde a um conjunto de salas no andar nobre da estrutura que envolve o pátio da entrada principal, perto da capela. Alvo de várias campanhas de restauro, com salas ainda à espera da sua vez (para reconquistar a aparência de outros tempos), o andar revela por um lado o tom fausto que se justificava num espaço que servia de sede do poder, mas não descuida sinais de uma busca de conforto que caracterizam também a arquitetura palaciana do século XIX.

A imponente escadaria dupla que serve os acessos ao andar nobre, uma galeria (mandada abrir no reinado de D Carlos) que acolhe quem ali chega e as salas de jantar (a mais antiga, mais "aconchegada", uma outra, enorme, criada mais tarde) fazem o início de um percurso que depois nos leva pelo que eram os aposentos da rainha e do rei, pelo meio passando pelo que eram as salas do Trono e Despacho, peças centrais da relação dos monarcas com o poder executivo. São hoje salas protocolares ou de reunião. Mas a oportunidade que aqui foi dada de nelas entrarem pequenos grupos de visitantes junta olhares importantes ao mapa lisboeta das antigas casas reais. É certo - e foi explicado - que do recheio original pouco resta e que muito dele está hoje noutros palácios e museus. O recorte e decoração das salas (e o relato da sua vivência) juntam contudo uma importante peça em falta para um retrato que nasce aos poucos junto de quem visita Ajuda, Queluz, Sintra, Mafra ou Pena (as casas reais visitáveis na zona da Grande Lisboa), certo que de algumas memórias anteriores ao terramoto de 1755, como os Paços da Ribeira, Alcáçova ou Alcântara, por exemplo, pouco resta senão relatos e pontuais representações desdenhadas).

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