Duplamente cénico

Faz parte da história do Parque Mayer com o nome de Capitólio, mas, recentemente, foi rebaptizado com o nome de Teatro Raul Solnado. A Ordem dos Arquitectos apresentou um projecto para  lhe mudar a face, para lhe dar um aspecto mais contemporâneo.

CLÁUDIA MELO

Oprojecto de Reabilitação do Cine-Teatro Capitólio - recentemente apelidado de Teatro Raul Solnado - foi publicamente apresentado na sexta-feira à noite na Ordem dos Arquitectos de Lisboa, uma forma de dar a conhecer a arquitectos e público em geral os procedimentos deste edifício notável.

Situado num recinto central e emblemático de Lisboa sobranceiro à Avenida da Liberdade, o Parque Mayer, local de teatros e espectáculos de variedades com forte dimensão cénica. Pelo que "…a integração do Capitólio pressupõe uma aproximação cénica ao sítio urbano - O Parque Mayer, e cénica - ao reabilitar o espaço como lugar de teatro...", defende o autor da reabilitação, o arquitecto Alberto Souza Oliveira, que venceu o concurso público internacional.

Inaugurado em 1931 e da autoria do arquitecto Luís Cristino da Silva (1896-1976), o edifício primitivo do Capitólio foi o primeiro exemplar Modernista - conjugado com influências art déco - a ser construído em Portugal. Foi ainda considerado um exemplo notável do princípio do Movimento Moderno na Europa por teóricos deste movimento cultural que se iniciou no princípio do século XX, e que privilegiou o funcionalismo dos seus espaços, a rejeição do ornamento e uma visão da arquitectura e do arquitecto como impulsionadores de um tempo socialmente mais justo. É, por isso, um edifício de enorme valor histórico e arquitectónico.

Mas também ímpar na vida cultural lisboeta até ao final dos anos 80 do século XX por combinar um grande salão para espectáculos de teatro, e music hall com um terraço para espectáculos ao ar livre. Era emblemática a "sala de espectáculos" tipo "caixa", que incluía um palco versátil e uma "torre de cena", que possibilitava a criação de cenários complexos para espectáculos teatrais.

"… Transformar o Capitólio é repor a sua "grande sala" e abri-la, lateralmente, para uma grande praça que "encaixa" o espectáculo…", refere Souza Oliveira, que na requalificação introduziu maior versatilidade e inovação na utilização da grande sala. O objectivo é o do Capitólio, mais uma vez, ser um espaço contemporâneo e poder comportar o maior número possível de formas de expressão cultural, como teatro, dança, música, novo circo e as tendências de interdisciplinaridade artística entre as áreas performativas e formas mais convencionais da expressão criativa.

"A grande caixa" poderá ser transformada numa única "arena", experimentados os "limites" …explorando múltiplos formatos de espectáculos….", refere o arquitecto.

Para tal irão ser introduzidas alterações, como um "esqueleto técnico", que sem desrespeitar a leveza do edifício original, irá apetrechar o "palco" e a "caixa" com meios técnicos de cena, como luz, som e vídeo. O palco também foi adaptado para comportar na maioria da sua área útil de representação um pavimento assente em elevadores motorizados que podem evoluir desde a cota de sub-palco até cotas superiores ao palco.

Por outro lado, "o volume da torre de cena foi dotado de maquinaria tecnologicamente evoluída e com grande capacidade responder aos desafios contemporâneos de manobra cénica, cumprindo elevados padrões de segurança e fiabilidade...", conta Souza Oliveira, que acrescenta que "… os princípios orientadores de todo o desenvolvimento deste projecto foram o de implementar soluções que respondam às orientações do Programa, que representam elevados padrões de fiabilidade, segurança e versatilidade, sem perder de vista soluções que signifiquem baixos custos de exploração".

Como resultado final, e conforme conta o arquitecto, "… atingiu-se uma solução global "limpa" que preserva a memória deste espaço emblemático…" e que possibilita uma reutilização à medida da vida contemporânea lisboeta.