António Cachola: "Nunca fui capaz de vender nenhuma obra da coleção"

O que leva um homem a comprar obras de arte e a querer expô-las? Ele construiu uma coleção de 600 obras, que integra grandes artistas portugueses de hoje, e está apaixonado por ela. A Arco premiou-o

António Cachola acaba de chegar a Lisboa, vindo da sua cidade de sempre, Elvas. Chega um pouco antes para ver a exposição da dupla Musa Paradisíaca (Eduardo Guerra e Miguel Ferrão) e Mauro Cerqueira. É a terceira exposição feita no espaço Chiado 8 com obras da sua coleção.

Enquanto passeia pelas salas, pergunta: "Eu acho que está uma exposição interessante, não está?" Depois falamos de muito, mas não de valores. Ainda que as obras de alguns dos artistas da coleção possam valer dezenas de milhares. Ele não sabe, nunca quis ver a coleção, com cerca de 600 peças, avaliada. Ainda que haja nela uma espécie de constelação formada por nomes como Francisco Tropa, Julião Sarmento, Rui Chafes, Jorge Molder, Vhils ou Fernanda Fragateiro.

Mas não falamos de valores, e nem Delfim Sardo, curador das mostras no Chiado 8, o quis fazer. Falamos antes de um colecionista que, por vezes, também é mecenas. "Em Portugal, fora das instituições, é muito raro que um colecionador aposte na aquisição de uma obra, contribuindo logo diretamente para a sua produção. Sobretudo quando as obras às vezes não são encomenda direta do António Cachola, são os artistas que vão ter com ele". Em suma, falamos de um "caso raro em Portugal".

Cresceu com arte na sua casa de família, em Elvas?

Não propriamente com esta arte que agora existe. Mas vivia perto da fronteira, e do lado espanhol havia uma cidade com muitos habitantes, Badajoz. Cresci com uma ligação ao outro lado bastante grande.

E estamos a falar de um período anterior ao 25 de Abril, portanto a diferença era enorme.

Exatamente, era o local onde podíamos encontrar coisas que na nossa cidade não encontrávamos.

Os caramelos, a Coca-Cola...

Exatamente, as pessoas iam lá fazer as suas compras. Habituei-me a crescer e a ter amigos do outro lado, muitos deles também ligados às artes e à cultura. À medida que ia crescendo, habituei-me a conhecê-los mais profundamente, a ter uma relação de proximidade maior, comecei a fazer algumas compras a artistas espanhóis que viviam naquela zona. Artistas que têm hoje peças no MEIAC [Museu Extremeño y Iberoamericano de Badajoz].

O que o fez aí, e faz ainda hoje, querer comprar uma obra?

Nós às vezes olhamos para as coisas e habituamo-nos a ver muitos trabalhos criados por esses artistas. Havia alguns por que me sentia atraído, por algum motivo que à partida não sabia qual, e dizia: Gostava de ter esta peça comigo. Não só estou a gostar de olhar para ela, de perceber por que é que o artista a fez, mas gostava de a ter mais tempo comigo, mais junto de mim, e daí fazer algumas compras.

Começou a comprar aos artistas espanhóis depois de voltar de Lisboa para Elvas? Por volta dos seus 20 anos?

Sim. Às vezes ajudava esses artistas a produzirem obras, comprando-lhes material. Em Badajoz já foram feitas exposições com trabalhos que nunca mostrei em Portugal. Estou a lembrar-me de um artista que morreu muito novo, o Domingos Frade. Tinha peças e livros de artista - já nessa altura - muito, muito interessantes. É a primeira vez que estou a referir isto. Se for a minha casa, eu tenho, neste momento, a coexistir com obras de artistas portugueses, obras destes artistas, o que é interessante, nunca me consegui desligar desse contexto.

E a primeira obra de um artista português que comprou foi de Fernando Calhau. Ainda a tem ?

Sim, mas nunca foi apresentada num projeto expositivo. Comecei a pensar a coleção e considerei que para o produto final fosse consistente, o princípio deviam ser os artistas que começaram a expor nos anos 80. Não é o caso do Fernando, que está ali como uma reserva.

Foi um pré-começo?

Sim. Tem um estatuto diferente.

Como e quando aparece a consciência de que é de uma coleção que se trata?

Surge quando penso que este projeto de colecionar é efetivamente um processo muito pessoal. [Mas] Logo no princípio pensei que não me sentia totalmente confortado só com o facto de fazer as minhas aquisições, a minha coleção, e de não a estar a partilhar com ninguém numa perspetiva múltipla. Para que os outros pudessem fruir, mas também para poder confrontar as minhas escolhas com os juízes de valor dos agentes do sistema da arte. Pensei logo que, se a coleção evoluísse com níveis de qualidade interessantes, gostaria muito de a mostrar. Não de forma pontual, mas permanente, publicamente.

Como começa, nos anos 90, a entrar nos ateliês de jovens artistas acabados de sair da Ar.Co e da Faculdade de Belas Artes?

Começo por frequentar as exposições de fim de ano letivo. Sempre que tinham lugar alguns acontecimentos que tinham que ver com apresentação de arte eu tentava estar presente. Comecei, de forma natural, e com muita vontade, a aproximar-me desses artistas. Inclusivamente, dos professores desses jovens estudantes de arte. Estou a lembrar-me da minha ligação com o pintor João Queiroz, mas também com o Rui Sanches [artistas na sua coleção]. A pouco e pouco comecei a perceber que para poder desenvolver o meu projeto não era suficiente visitar exposições, era fundamental ter uma aproximação diferente aos artistas.

Quem foram os primeiros a chamar a sua atenção?

O Pedro Gomes, por exemplo, a Joana Vasconcelos...

Quando ninguém a conhecia.

Sim, comprei-lhe a primeira peça em 1998.

Como assistia a sua família a isto?

As coisas aconteciam de forma natural, sem a dimensão que hoje têm. Não apareci com uma coleção.

Onde foi guardando as obras?

Em casa e em armazéns devidamente acondicionados.

A coleção começa logo quando vai trabalhar para a Delta Cafés?

Depois. Começo a trabalhar em 1981. E, já agora, houve outra coisa fundamental: no meio da década de 80 aconteceram em Campo maior os Encontros Ibéricos de Arte Moderna. Todos estes artistas que agora são tão importantes estiveram presentes. Desde o Julião Sarmento ao Xana, ao Pedro Proença.

O esforço financeiro era grande, quando começou?

Sim, apesar de esse esforço financeiro não ser igual ao que acontece nos últimos tempos. Houve um boom muito grande nas artes plásticas, um crescimento muito acelerado dos preços. Eu ia fazendo as coisas de forma gradual, sempre com uma ideia de controlo das minhas finanças e do meu orçamento com grande rigor. À medida que o tempo vai avançando vamos crescendo e tendo condições para fazer mais aquisições com outro fôlego.

Vendeu obras para comprar?

Fui muitas vezes confrontado com essa situação. No entanto, nunca fui capaz de vender nenhuma obra da coleção. Mesmo aquelas de artistas que deixaram de ser artistas. Guardo-as com a mesma emoção com que faço e guardo as outras. Se me pergunta: isto deve ser assim? Se calhar não, e eu próprio reconheço que, em determinados momentos, fazia sentido fazer algumas vendas para conseguir algum encaixe financeiro para poder investir na compra de outras obras que considere mais importantes.

Teve de aprender a ser colecionador? Foi autodidata nisso?

Isto tem que se aprender, tudo na vida se aprende. E, quer queiramos quer não, de forma consciente ou inconsciente, estamos sempre a ser influenciados por outros. Procuro essa situação, ainda que a decisão final seja muitas vezes subjetiva e dolorosa, quando nos retiramos e voltamos a encontrar-nos connosco no processo de decisão final.

A decisão final é solitária?

É verdade, temos de fazer opções, porque os recursos são escassos.

Custa-lhe muito não comprar uma obra?

Sim, custa-me, mas depois passa-me rapidamente, porque acredito que fiz a opção que tinha de ser feita. Mas também há momentos em que já me tenho arrependido de não ter feito determinadas opções.

Deixou de comprar obras para si?

Todas as obras são para mim, compro-as para mim. Mas também me coloco muito no lugar dos públicos da coleção. Portanto, quando estou a comprar para mim estou a comprar também para estes públicos.

Não há nada como "este é só para a minha sala"?

Não sou capaz de fazer isso. Tenho uma relação muito forte com as peças, mas à relação pessoal, íntima, completamente privada com a peça, sobrepõe-se a apresentação pública da peça. Tê-la num espaço expositivo público para mim é como se estivesse exatamente no espaço da minha casa mais íntimo, naquele onde gosto de estar e onde me sinto melhor dentro de casa.

Agora tem a sua filha a trabalhar consigo. Aprende com ela?

Ela conseguiu, por força da sua formação académica, fazer uma coisa que o pai não consegue fazer: estudar a coleção com um rigor científico com que eu não consigo estudar ou olhar para ela. Estou muito contente, porque a Ana Cristina já me acompanha muito neste processo e acho que neste momento não podia ter melhor companhia.

Que artistas o entusiasmam e ainda faltam na coleção?

Falta sempre muita coisa. Sendo que a minha preocupação é reforçar os núcleos que já existem. Desde sempre tentei fazer com que existisse na coleção uma componente intergeracional muito forte. Hoje já há pelo menos três gerações de artistas. Há novos artistas que considero interessantes e que ainda não estão na coleção. Posso falar-lhe, por exemplo, de Von Calhau [Marta Baptista e João Alves]. Estou a refletir, a pensar, a aproximar-me.

Até agora a CAC só tem artistas portugueses. Pondera abri-la a outras nacionalidades?

À partida não. Penso que devemos continuar com esta vocação. A ideia é, como se costuma dizer, fazer cada vez melhor aquilo que já se faz mais ou menos bem.

Fora de Portugal, as obras apenas foram mostradas em Espanha?

Sim. Mas a internacionalização da arte portuguesa, de que tanto se fala hoje, não tem de ser feita só num sentido, não temos de ter exclusivamente projetos lá fora: o diálogo pode ser feito trazendo os artistas estrangeiros. Penso que é também por essa via que se vai fazer a internacionalização. Fazendo escolhas de artistas estrangeiros que possam ser colocados em confronto com artistas portugueses.

Este ciclo de exposições no Chiado 8, que começaram em 2015, terminam em 2017, quando se comemoram dez anos de Museu de Arte Contemporânea de Elvas [MACE]. O que se segue?

Aqui inauguramos a 6 de maio o João Maria Gusmão e Pedro Paiva, e Francisco Tropa. A 15 de julho inauguramos o Jorge Molder. No MACE, depois [da exposição] do João Louro vai acontecer uma exposição de diálogo entre o design e a arte contemporânea, escolhidas na minha coleção: uma em Elvas e outra aqui em Lisboa, com curadoria da Bárbara Coutinho. Em outubro vamos ter uma exposição do Augusto Alves da Silva no MACE até abril de 2017. Em maio, inauguramos a exposição dos dez anos, que se comemoram em julho. O curador é o João Silvério. Queremos fazer uma exposição que saia do museu e ocupe a cidade, edifícios emblemáticos que deram o contributo para que Elvas seja património do UNESCO.

Vai aproveitar as salas do agora reabilitado Forte da Graça?

Eventualmente, também. Queremos ainda nessa altura lançar o [livro] volume 2017 da coleção. Também com o Delfim [Sardo], que coordenou o de 2012.

O que significou receber o prémio "A" al Coleccionismo na última edição da Arco, Feira de Arte Contemporânea de Madrid?

Foi uma coisa fantástica, uma grande honra. Foi um prémio para o colecionador, para a coleção, mas não tenho dúvida que é dedicado também aos artistas portugueses que a integram, são artistas fantásticos e obras extraordinárias. O prémio foi acima de tudo para os artistas portugueses contemporâneos.

[Notícia corrigida: O colecionador diz ponderar adquirir obras dos Von Calhau, não de João Calhau, como inicialmente foi escrito]

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