Angra, o clube de jazz no meio do mar

A Orquestra AngraJazz vai tocar pela primeira vez na íntegra em Portugal a The Far East Suite, de Duke Ellington. É com o ritmo pouca-terra de Tourist Point of View, o primeiro andamento, que arranca na quinta-feira o AngraJazz, na ilha Terceira, Açores

Quinta-feira, 13 de outubro, 21.30. É esta a hora marcada para o comboio instrumental partir do Centro Cultural de Angra de Heroísmo, na ilha Terceira, Açores. Cabe à orquestra da casa arrancar o 18.º festival AngraJazz, tocando pela primeira vez em Portugal The Far East Suite, de Duke Ellington. O primeiro andamento, Tourist Point of View, é como uma viagem sobre carris, com o mundo a passar lá fora.

Uma estreia carregada de emoções. Porque "é uma peça fabulosa" e porque só apenas há um ano foi disponibilizada a partitura. Quem o conta é Pedro Moreira, que, com Claus Nymark, dirige a Orquestra AngraJazz desde a sua criação, há 14 anos. E se esta conjugação não fosse suficiente, tomada a decisão de apresentar a suite na abertura do festival, ainda vieram a descobrir que Duke Ellington estreou três andamentos da peça em Lisboa, num concerto no Cinema Monumental, em 1966. Foi há 50 anos, diz Pedro Moreira. "Nunca mais voltou a ser tocada no nosso país. Podíamos dizer que escolhemos esta suite por causa dos 50 anos mas não era verdade. Só descobrimos depois e foi uma coincidência extraordinária."

O diretor da orquestra não esconde a perdição por esta composição: "É uma peça magistral que eu ouvia desde miúdo. Tem um sabor muito exótico, foi feita na sequência de uma tournée muito longa pelo Médio Oriente. O Ellington ficou muito marcado por essa viagem." Um dos temas, Isfahan, tornou-se um standard do jazz.

Este é o primeiro concerto do AngraJazz no ano em que atinge a maioridade: 18 anos, 115 concertos, 511 músicos (dos quais 82 açorianos). As contas estão feitas e Miguel Cunha, da associação AngraJazz, ri-se com a lembrança de que o festival está "crescido". Muito aconteceu desde que, em 1999, respondeu (com José Ribeiro Pinto) ao desafio dos então presidente da câmara e secretário regional do turismo. "Montámos um primeiro festival que teve muito sucesso. Fizemos as primeiras quatro edições no claustro do Museu de Angra. Entretanto ficou pronto o Centro Cultural e de Congressos de Angra e o festival passou a partir da 5.ª edição a realizar-se aqui." O centro cultural de Angra foi feito numa antiga praça de touros. "O grande auditório é semicircular com um palco central. Tem uma plateia com mesas de seis lugares com capacidade para cerca de 200 pessoas e uma bancada com cinco filas que levam as outras 350 pessoas. Há uma grande proximidade entre o palco e o público, há um serviço de bebidas durante os concertos, tenta-se recriar o ambiente dos grandes clubes de jazz dos tempos áureos do jazz na América", conta.

A organização tem boas expectativas para esta edição mas no jazz nunca se sabe, e é essa a magia. "A beleza do jazz é que tem muito a ver com o ambiente que se cria e com o público, com os músicos. Os músicos gostam muito de cá estar, no meio do Atlântico, ficam muito impressionados com Angra e cria--se um ambiente engraçado, as pessoas encontram-se e dialogam. Há uma onda muito boa e acabam por dar bons concertos. Tudo leva a crer que seja um festival muito bom", diz.

Neste ano passam pela ilha Terceira Christian McBride, com o seu trio, o trompetista Ralph Alessi Baida, Charenée Wade (ver entrevista) e The Cookers, todos oriundos dos Estados Unidos. "Neste ano, por uma questão de programação ao contrário do que é normal os quatro grupos são todos dos EUA", explica. Normalmente tentam introduzir na oferta formações europeias. Já a "quota" portuguesa chega neste ano pela mão de Desidério Lázaro, cujo álbum Subtractive Colors "foi considerado pela crítica do ano passado o melhor disco de jazz português. É uma formação muito interessante porque tem três sopros, dois contrabaixos e uma bateria e o disco é muito bom", frisa.

Tradição antiga

Nestes 18 anos, o auditório esteve sempre lotado ou muito próximo disso. A fama do festival cresce e todos os outubros chega à Terceira público de outras ilhas açorianas, da Madeira, do continente e estrangeiro, especialmente ingleses e americanos. "Alicerçámos muito este projeto no público que temos. É uma ilha com uma tradição em termos de jazz, que remonta à presença dos americanos e dos ingleses na II Guerra Mundial", lembra Miguel Cunha.

A Orquestra AngraJazz nasceu ao quinto ano de festival. "Pensámos que era interessante formar uma orquestra, pusemos um anúncio no jornal para a eventual formação de uma orquestra. Apareceram uma série de músicos e é com essa base que temos estado a trabalhar. É um projeto aberto, um projeto de formação", explica.

Nesta semana os músicos e Claus Nymark ensaiaram intensamente a suite de Duke Ellington. "É uma orquestra na sua maioria de amadores mas estão a tocar a um nível extraordinário", diz Pedro Moreira, que chega por estes dias à ilha, bem a tempo da estreia no festival. "Vai ser uma emoção."


AngraJazz

De 13 a 15 deste mês

Angra do Heroísmo, Terceira, Açores

Bilhetes de 5 a 45 euros