Andrei Tarkovsky: a arte de filmar a vida como um sonho

O ciclo Tarkovsky começa amanhã, em Lisboa, no Espaço Nimas, onde há também uma exposição com fotografias e desenhos inéditos, e no Porto, no Teatro do Campo Alegre

Leonid Brejnev, líder da URSS entre 1964 e 1982, exigiu um visionamento privado de Andrei Rublev (1966), antes da estreia oficial. Não gostou do que viu - por razões alheias à arte ou à estética -, saiu antes do fim da projeção, e proibiu a exibição nacional (até 1971). Justificou-se com a alegação de que o filme passava uma ideia negativa da história da Rússia. Era a segunda longa-metragem de Andrei Tarkovsky (1932-1986), e marcou de forma clara o início da sua complexa relação política com o Estado. É o primeiro título do ciclo dedicado ao cineasta, a partir de amanhã no Espaço Nimas, em Lisboa (no Porto, passa dia 12), e uma das mais rele- vantes produções russas no panorama mundial, desde Ivan, O Terrível, de Sergei Eisenstein.

Andrei Rublev é o paradigma explícito de como Tarkovsky procurou um vínculo com a essência das imagens, incorporando ao longo da sua curta filmografia - mostrada integralmente no ciclo - uma herança pictórica que vai desde a Renascença Italiana de Leonardo da Vinci ao Norte da Europa, com a pintura de Albrecht Dürer. Rublev foi um pintor de ícones religiosos na Rússia do século XV, e o que Tarkovsky nos revela está muito longe dos convencionais retratos históricos e biográficos. É uma crónica de pulsão visual sobre a tirania a que foi submetido o pintor, num país mergulhado em miséria, violência e abandono do transcendente. Terá sido nesse espelho simbólico que Brejnev viu amargamente refletida a então URSS.

A arte e o povo

Antes de Andrei Rub-lev, Tarkovsky já tinha despertado aten- ções. Desde logo, com a curta-metragem de final de curso, O Rolo Compressor e o Violino (1961), e depois com a primeira longa, vencedora do Leão de Ouro, A Infância de Ivan (1962), ensaiando admiravelmente a dimensão onírica que cruza toda a obra vindoura. Em ambas os protagonistas são crianças, mas se em Ivan se assiste à perda da inocência perante um cenário de guerra, em O Rolo Compressor e o Violino guarda-se a mais poética noção do cineasta sobre a arte e o povo.

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