Anderszewski passeando entre liberdade e restrição

Tal como com Uchida na véspera, foi o primeiro recital a solo do pianista polaco-magiar na Gulbenkian

Curioso que Anderszewski e Uchida tenham tocado em dias seguidos na Gulbenkian. O recital de Uchida terminara com umas portentosas 'Variações Diabelli', de Beethoven - justamente a obra que fez famoso um ainda jovem (tinha 21 anos) Anderszewski no Concurso de Leeds e obra de que é um dos mais autorizados intérpretes. E curiosamente Anderszewski terminaria o seu recital também com Beethoven tardio: a 'Bagatela, op. 126 n.º 1' (2.º extra; o 1.º não identificámos: Szymanowski?) e logo aí ficou patente a sua "conexão" com o som desse Beethoven.

Em termos práticos, no entanto, o recital de Uchida "canibalizou" um pouco o público para Anderszewski. Por aqui, foi pena a contiguidade. E foi pena porque, ouvidos assim em sucessão, Anderszewski e Uchida revelaram posturas muito diferenciadas e suscitaram-nos férteis reflexões. Seja como for, Piotr perfila-se cada vez mais como um "diferente". De todos.

O pianista reverteu a ordem do programa, preenchendo com Schumann a primeira parte e terminando o recital com a 'Suite Inglesa'. Já aqui, diferente.

E o Schumann acabou mesmo por ser o cerne do problema Anderszewski. Para já, as 'Geistervariationen' são uma obra cujo valor releva mais do simbólico que do propriamente musical. E foi na esfera do simbólico que a interpretação de Anderszewski se moveu, conferindo-lhes uma identidade sonora toda subjetiva. Mas, dada a obra, foi mitigada a perplexidade.

O problema foi maior na 'Fantasia, op. 17'. Porque aqui deparou-se-nos um Anderszewski digamos "expressionista", isto é, orientando a interpretação para o plano da expressão instantânea da sua percepção momentânea. No que sobrevém o perigo de nos aproximarmos do arbitrário, do capricho, do império do sujeito-intérprete. Claro que o andamento central, mais objetivo, saiu relativamente incólume, mas os outros dois... - busquemos de novo o recital de Uchida e comparemos o modo como ela usou o 'rubato' e agógica para mais intensamente captar a poética dos 'Improvisos' de Schubert. Só raramente se captou essa intenção em Anderszweski.

Na 2.ª parte, uma obra como as 'Métopes' adequa-se "como uma luva" ao pianismo de Anderszewski: a liberdade de criar ele próprio movimento ou quietude, luz e cor ou neblina, explosões sonoras ou silêncios cavos.

E que surpresa que um pianismo destes se dê bem em música de "baias" mais apertadas como a de J.S. Bach? E, no entanto, ele cavou os contrastes, fazendo do 'Prélude' e da 'Gigue' (até à custa da clareza de linhas desta última) verdadeiras 'showpieces'; ou criando uma brecha na "irmandade" 'Allemande'/'Courante', de tal forma contrastou a segunda; ou deleitando-se na largueza da 'Sarabande' e mais ainda, previsivelmente, nos 'agréments' da mesma; ou pondo até um pouco de ironia na 'Gavotte'. Solidez, contudo, aqui, mesmo que mantida no fio da navalha. Um pouco como o próprio Anderszewski, afinal.

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