"Amazónia" ou uma espécie de telenovela ecológica

Depois de "Moçambique", a companhia Mala Voadora faz um espetáculo-delírio com ideias e materiais reciclados.

"Um grupo de artistas de vanguarda, com o patrocínio da fundação Cartier, foi para a selva fazer um a telenovela ecológica." Tudo começa à mesa do pequeno-almoço. Como noutra telenovela qualquer, há uma mesa sofisticada, um criado a servir café e a família em conversa animada, uma avó, um casal, um rapaz e uma rapariga. Acabaram de chegar à selva, após uma longa viagem, à procura de paz e sossego. Embora o pai deixe logo o aviso: "Isto é tudo muito bonito, mas é assim: da janela." Do outro lado da janela estende-se uma floresta de pinheiros. Bem-vindos a Amazónia, a eco-novela da companhia Mala Voadora.

Jorge Andrade, o encenador, explica que a viagem desde Moçambique, a última produção do grupo e eleita Melhor Espetáculo no Prémio Autores 2017 da SPA - Sociedade Portuguesa de Autores, até à Amazónia foi feita com naturalidade. Moçambique terminava com uma seca terrível que punha fim ao negócio de concentrado de tomate da família em cena. Esses problemas ambientais estão agora expostos em Amazónia. "Só que para fazermos um espetáculo ecológico achámos por bem nós próprios também sermos ecológicos. Então, desde o argumento à cenografia e às luzes é tudo reciclado de outros espetáculos", diz Jorge Andrade. Como é explicado a certa altura, "os atores são reciclados do espetáculo Moçambique", os pinheiros artificiais vieram de The Hunting Scene, espetáculo de Cláudia Gaiolas e Daniel Worm, os efeitos de luz já tinham sido usados noutros espetáculos da companhia, a música é feita com "os restos" da música que Rui Lima e Sérgio Martins tinham feito para Hamlet e até as ideias do argumento foram "roubadas" de outros espetáculos que os atores viram por aí.

A telenovela arranca com um episódio-piloto. "Só que para nós irmos para a selva e continuarmos a gravar a telenovela precisamos de apoios, se não não conseguimos criar, então vamos fazendo campanhas de promoção no centro Georges Pompidou, em Paris, no British Film Institute, em Londres, e noutros sítios, e vão se juntando patrocinadores que vão complexificando o argumento da telenovela e às tantas nós já não sabemos e, que selva é que estamos e vamo-nos perdendo um pouco entre a ficção e a realidade." Quando Jorge Andrade usa o pronome "nós" está a pôr a nu grande parte do delírio em que se transforma este espetáculo: "As fronteiras entre quem é a família e quem são os grupos de artistas de vanguarda que vão para a Amazónia ou os próprios atores que fazem o espetáculo vão-se confundindo, por isso às tantas já não sabemos quem são os artistas e quem são as personagens."

Enquanto isso, a novela vai sendo "colonizada" por todos os patrocinadores, cada um com a sua exigência, e à mesa do pequeno-almoço a cena inicial repete-se, uma e outra vez, à medida que as intenções ecológicas são substituídas pela tentativa de massacre dos índios da Amazónia e pela devastação pelo fogo de toda a floresta. Se estavam à espera de um espetáculo politicamente correto vão ficar bastante desiludidos: "Nós não acreditamos que os espetáculos sejam para dar lições às pessoas mesmo que sejam lições ecológicas", diz Jorge Andrade. Aqui impera a ironia como grande ímpeto artístico. O realismo inicial dá lugar a um império do ridículo e do delírio, muito longe do mainstream telenovelesco.

Amazónia
Companhia Mala Voadora
Teatro São Luiz, Lisboa De 9 a 19 de novembro
Bilhetes: 12 euro/15 euro

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