Amantes luso-japoneses na Estação de São Bento

O DN esteve no último dia da rodagem portuguesa de Amantes na Fronteira, uma coprodução entre Portugal e o Japão e que foi rodada entre o Minho, o Porto e o Japão.

A atriz Ana Moreira, loira futurista abraçada a um japonês... Quem esteve na semana passada na zona da Estação de São Bento, no Porto, terá ficado surpreendido. Estávamos em 2021 na ação de Amantes na Fronteira, uma coprodução entre Portugal e Japão que nas últimas semanas teve rodagem no Minho e no Porto. O DN observou um dos últimos momentos da rodagem, neste caso as filmagens feitas em modo de guerrilha por diversas ruas do Porto, numa manhã nada fria de dezembro.

Amantes na Fronteira é uma história de reencarnações passada em dois tempos. É realizado por Atsushi Funahashi, realizador japonês com algum currículo de festivais internacionais, e coproduzido pela Bando à Parte, de Rodrigo Areias, e pela Office Kitano, a mais relevante produtora japonesa, propriedade do cineasta e ator Takeshi Kitano.

A parte que se passa no século XVIII mostra-nos como numa mansão lisboeta uma donzela portuguesa (Ana Moreira) se apaixona por um criado japonês. Mais tarde, em 2020, uma mulher portuguesa (Ana Moreira) apaixona-se por um homem japonês, mas a paixão acaba em tragédia e o seu destino é a vingança. Na cena que acompanhamos, Ana Moreira e o ator Tasuko Emoto passeiam apaixonadamente por um Porto futurista que é dos nossos dias. Segundo a visão de Funahashi, do presente ao futuro nada muda, talvez apenas ligeiramente pormenores de guarda-roupa. O curioso é que a azáfama da rodagem não perturba o funcionamento da estação de comboios. O que acontece apenas é meia dúzia de curiosos ficarem a olhar para o pequeno aparato. A equipa técnica, essencialmente portuguesa, é de uma discrição notável, não fazendo parar o corrupio dos transeuntes. Ana Moreira e o ator japonês estão a interpretar personagens que exploram com olhares turísticos a estação. O realizador tem um ritmo acelerado e quase nem precisa de dizer corta. Todos sabem bem os truques deste método solto e de câmara livre. Não há diálogos e o som que está a ser captado é apenas para ambiente.

"Ainda ninguém tinha abordado este tema. Foi um grande desafio!"

"Este é um projeto que tenta ser uma ponte entre Portugal e o Japão. Sinto-me muito entusiasmado com o que filmámos. Do que vi estou muito contente, mas há muita pressão em fazer um filme desta maneira", conta o realizador, já com a nostalgia do último dia de filmagens na mente. Para Funahashi esta é a primeira vez que trabalha com uma equipa estrangeira e fora do Japão. Segundo nos contam da equipa, as filmagens terão corrido bem mas surgiram variados episódios de "perdidos na tradução" ao longo destas semanas. Mas Amantes na Fronteira tem ainda uma semana de rodagem no Japão, onde se conta o epílogo da história, neste caso uma vingança muito lusitana.

Na parte do século XVIII, Funahashi diz que foi complexo abordar o tema dos descendentes dos escravos japoneses: "Houve escravos japoneses que vierem do Japão via negociantes de escravatura portugueses. Escravos que foram também exportados para todo o mundo... Ainda ninguém tinha abordado este tema! Foi um grande desafio! Tive de fazer muita pesquisa e, garanto, são poucos os que sabem disto."Paradoxalmente, o processo aqui foi ao contrário. Foi o produtor português, Rodrigo Areias, quem escolheu o realizador: "Foi um processo em que eu, a convite da EU-Japan Fest, uma instituição de relações internacionais culturais japonesas, fui a Tóquio e me reuni com vários produtores e realizadores, tendo acabado por apresentar a proposta de fazermos uma coprodução entre Portugal e Japão à Office Kitano, que é uma produtora de grande prestígio, pois produz filmes de muitos dos realizadores asiáticos mais pertinentes na atualidade, como Jia Zhangke, e não apenas os filmes de Kitano. Depois de Shozo Ichiama, o produtor japonês, me mostrar o Cold Bloom do Atsushi Funahashi, chegamos à conclusão de que este seria o realizador indicado para um projeto deste tipo. E assim convidei-o ainda em 2013 para vir a Portugal conhecer o país, e um pouco da sua cultura. Passados dois anos, o Atsushi tinha um projeto finalmente escrito e pronto para concorrermos ao apoio do ICA às coproduções minoritárias, que acabámos por receber." O objetivo é agora tentar a seleção no Festival de Cannes.