Aline Frazão canta 'Insular' de olhos postos numa Angola em ebulição

No novo trabalho, lançado amanhã, a compositora angolana dá voz aos dias de hoje como ao seu interior ou ao que nunca muda

Estava sol no largo do Intendente, em Lisboa, naquela manhã. Em Angola, o seu amigo e rapper Luaty Beirão - um dos 15 ativistas angolanos detidos em junho e cujo julgamento começou na segunda-feira - cumpria o seu 31.º dia de greve de fome, que entretanto terminou a 27 de outubro ao fim de 36 dias. Aline Frazão, que nasceu há 27 anos em Luanda e hoje vive em Lisboa, chegava para falar do disco que gravou na ilha escocesa de Jura. Era lá que estava quando soube da prisão dos ativistas.

Nessa altura, a cantora e compositora angolana já sabia que o lugar que habita é uma ilha algures entre ela mesma, o mundo e Angola. Já sabia que o disco, terceiro álbum de originais, lançado amanhã, seria assim, Insular.

"Foi um processo muito disperso, como sempre que estás a fazer um disco. As peças vão-se juntando ao longo de muitos meses. Lembro-me que teve muito impacto para mim ter ido tocar à Madeira, por exemplo. A sensação de estar isolada alguns dias lá teve muito impacto em mim" conta Aline. O processo, definitivamente timbrado pela tal ilha quando a cantora soube que o disco seria gravado em Jura, onde trabalhou com o produtor Giles Perring - "o encontro improvável de uma artista angolana numa ilha escocesa com um produtor britânico" - teve "muitas histórias".

Histórias como aquela em que a amiga Paula, uma atriz brasileira, se lembrou de lhe contar a história do Conto da ilha desconhecida, de José Saramago. "Para mim foi mesmo o conto da minha vida naquele momento. É maravilhoso, conta a história de um homem que queria sair do castelo, do reino, à procura de uma ilha desaparecida e todo o mundo achou que ele era louco porque todas as ilhas já estavam descobertas. E há uma empregada de limpeza do castelo que se junta a ele nessa empreitada de conseguir um barco." Salvaguarde-se o enredo de Saramago e diga-se apenas que, no final, era "o barco a própria ilha". É daí que vem a canção O homem que queria um barco, e é aí que Aline volta a lembrar que ainda há ilhas por desbravar, que nem todas estão "escritas".

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